O maior equívoco de um líder é pensar que a adoção da IA é um desafio técnico. Não é. É um desafio de liderança. A aprendizagem resultante dos programas de imersão organizados pela LBC em Silicon Valley, nos EUA, e da prática de prestação de serviços nas empresas, levam-nos a concluir que as organizações que vencerão na era da IA não serão aquelas com a tecnologia ou os algoritmos mais avançados, mas aquelas com as melhores capacidades de liderança para transformar a IA numa realidade operacional quotidiana.

De tomadores de decisão a arquitetos de sistemas aumentados

Com a IA, a liderança já não consiste em ter todas as respostas ou tomar as “decisões certas”. Os líderes nem sempre serão as entidades mais inteligentes na sala.

O cerne da liderança na era da IA consiste em potenciar as interfaces entre a inteligência humana e a inteligência artificial, bem como os limites de ambas. Os líderes devem tornar-se arquitetos de “organizações aumentadas”, onde o julgamento humano e a inteligência artificial se combinam para impulsionar decisões e operações melhores, mais rápidas e mais escaláveis. O que vai ser decisivo é construir novas organizações que aprendem e produzem valor empresarial com IA mais rapidamente do que a concorrência.

Este não é um conceito trivial. É uma ruptura no papel da liderança muito mais profunda do que a maioria dos líderes empresariais possa julgar. O sucesso e o impacto de um líder já não dependem apenas do seu conhecimento, mas sim da conceção de sistemas que tomem boas decisões de forma consistente. Os líderes precisam de redesenhar como as decisões são tomadas, quem as toma, que dados as alimentam, ao combinar a ética e as aspirações humanas com sistemas inteligentes.

As abordagens tradicionais de comando e controlo não serão eficazes. Será mais importante que os líderes criem o contexto no qual as suas equipas possam navegar com sucesso pelas mudanças de processos orientadas pela IA, mudanças de funções e outras perturbações internas e externas nos negócios.

Como podem os líderes adaptar-se

As dimensões e estratégias de adaptação são inúmeras e profundas. Referem-se a seguir apenas algumas.

  1. Aprender IA como missão de liderança. Fazendo a sua própria pesquisa e aprendizagem. Quantas horas por dia determina muito o seu sucesso futuro. Não é preciso ser perito, mas sim compreender o que a IA pode e não pode fazer. Isto inclui a compreensão de conceitos como o viés, os riscos, a qualidade dos dados e os limites da automatização. Sem isto, não podem fazer as perguntas certas, nem contestar as respostas erradas.
  2. Avaliar o impacto da IA no modelo de negócio e nos resultados e fortalecer as vantagens competitivas impulsionadas pela IA. A IA não vai alterar a criação de valor para todos da mesma forma. Os líderes devem desenvolver uma visão de como a IA pode criar, fazer perder ou transferir valor na sua atividade e construir as vantagens que podem perdurar num ambiente dominado pela IA.
  3. Construir a arquitetura de decisão. A questão-chave já não é “Que decisão devo tomar?”, mas sim “Como deve esta decisão ser tomada daqui para a frente?”. Quais as decisões e operações que podem ser automatizadas, melhoradas ou que devem continuar a ser lideradas por humanos – e redesenhar os processos, as responsabilidades, as equipas e a organização em conformidade.
  4. Mobilizar e construir competências de IA nos líderes intermédios. O conhecimento do contexto da IA em cada organização é a componente decisiva para construir uma organização aumentada. Os líderes intermédios são mais capazes de fazer a diferença na adaptação da IA por conhecerem melhor o negócio e os processos, no equilíbrio entre visão abrangente e detalhe funcional.
  5. Fazer o upskill de toda a organização. Não haverá espaço para quem não tiver um mínimo domínio de ferramentas de IA. Não basta formar equipas de liderança, é necessário democratizar o acesso às competências de IA em toda a organização, promovendo uma cultura de aprendizagem contínua e preparando todos os colaboradores para trabalhar num contexto cada vez mais impulsionado pela IA.
  6. Refazer o modelo operacional, fazendo a orquestração da mudança em escala, em que a IA seja incorporada nos processos, o que requer a preparação dos dados, a reformulação dos fluxos de trabalho, a integração com os sistemas existentes, uma governação adequada, cibersegurança, colaboradores qualificados, políticas de utilização responsável e uma gestão eficaz da mudança.

O discernimento humano é o novo recurso escasso

Na era industrial, os recursos escassos eram os ativos físicos e a capacidade de produção. Na era digital, os recursos escassos eram o software, os dados e a velocidade de replicação. Na era da IA, o recurso escasso é o discernimento humano. A IA está a produzir resultados a uma velocidade superior à que a inteligência humana consegue validar por si só. A capacidade de julgamento é escassa. A “IA desleixada” está a proliferar nas empresas. As pessoas estão a produzir mais a um ritmo mais acelerado, e chegam a conclusões que nunca foram bem examinadas. Na maioria dos casos, o ser humano não está a tomar uma decisão, está a ratificar um resultado algorítmico sob pressão de tempo e com informação incompleta.

Conciliar a capacidade humana com a artificial

A IA produz mais e melhor, mas só os humanos têm aspirações e definem o porquê e os objetivos, bem como o enquadramento e os limites éticos. A IA é a primeira tecnologia que se melhora a si própria, e está a melhorar a um ritmo exponencial. Os investimentos que estão a ser feitos no desenvolvimento da IA generativa e nos centros de dados são astronómicos. Neste contexto, os riscos associados à ausência ou à perda de controlo humano de uma IA cada vez mais poderosa e autónoma são cada vez mais elevados.

O sucesso da liderança na era da IA reside na capacidade de construir uma inteligência colaborativa entre humanos e máquinas em todas as dimensões da organização que conjuguem de forma produtiva, segura e ética a imensa inteligência das máquinas com os valores e a capacidade humana.

A liderança é, em última análise, uma atividade exclusivamente humana. Terá maior sucesso quem não apostar somente em algoritmos, mas também em identificar e desenvolver líderes adaptados à nova realidade imposta pela inteligência artificial.