A AstraZeneca e a Bristol Myers Squibb (BMS) anunciaram recentemente que estão em negociações que podem resultar num dos maiores grupos farmacêuticos do mundo, avaliado em quase 400 mil milhões de dólares.
A AstraZeneca, que saiu de uma posição vulnerável em 2014 (quando resistiu à oferta da Pfizer), tornou-se num dos grandes ‘compounds’ defensivos de qualidade na Europa, com forte exposição aos EUA e uma carteira de oncologia de referência. A ambição pública de atingir 80 mil milhões de dólares de receitas em 2030 mostra que a gestão pensa o negócio em termos de escala global e de pipeline de longo prazo, e não apenas em função da próxima janela de resultados.
Do lado da BMS, a empresa procura aumentar as fontes de receita a longo prazo, com a AstraZeneca a ser uma das apostas estratégicas para ambas as empresas, que parecem dar sinais de existirem sinergias.
Racional por detrás deste interesse
Em termos estratégicos, o racional do acordo assenta na combinação de três vetores:
- Escala em oncologia e imunologia;
- Reforço da presença nos EUA;
- Diversificação do portefólio para mitigar riscos de perda de exclusividade.
Para a AstraZeneca, aumentar ainda mais a exposição ao mercado americano não é apenas uma questão de receitas, é uma forma de assegurar acesso privilegiado a dados, redes clínicas e ecossistemas de inovação que alimentam a próxima geração de terapias.
Ao mesmo tempo, a combinação com a BMS pode acelerar o cumprimento da meta de 80 mil milhões de receitas em 2030, reduzindo a dependência de crescimento orgânico em áreas onde a competição é maior e o escrutínio regulatório tende a aumentar.
Impacto setorial
No setor, esta notícia funciona como mais um sinal de que a consolidação continua a ser a resposta dominante à pressão de I&D e à necessidade de escala para aceder a dados, tecnologia e talento. Uma operação deste tamanho reforça a ideia de que a fronteira entre as empresas de big pharma se está a esbater, com grupos a posicionarem-se como ecossistemas integrados mais do que como portefólios isolados de produtos.
Earnings bons, mas os ‘bons’ resultados não chegam
Os dados mais recentes de resultados da AstraZeneca mostram um negócio a crescer em linha ou acima do que seria exigível a um large-cap defensivo: receitas em expansão, margem bruta elevada, lucros ajustados a subir e guidance mantido. Em particular, os EPS têm vindo a bater o consenso de forma consistente.
Ainda assim, os bons resultados não têm sido suficientes para sustentar a avaliação em bolsa da empresa, que já corrigiu mais de 40% desde que atingiu máximos históricos. O anúncio da possível fusão das empresas também desencadeou um novo sell-off nas ações da AstraZeneca, que caíram 7% após a notícia.