A crítica não foi elogiosa nem especialmente branda com “A Odisseia”, o mais recente filme do realizador britânico Christopher Nolan, que também assina o argumento da adaptação ao cinema de uma obra com mais de 2.800 anos, o poema épico homónimo atribuído a Homero. Público e crítica nem sempre confluem. E este parece ser um desses casos. Gritante, aliás. Os números assim o atestam.

Segundo dados do ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, o filme já levou mais de 420 mil espetadores às salas portuguesas. Há até quem privilegie as salas IMAX para uma experiência imersiva. E nem o preço dos bilhetes – 11 a 13 euros – parece estar a pesar na decisão.

“A Odisseia” terá custado 250 milhões de dólares (cerca de 216 milhões de euros) e é a primeira longa-metragem filmada integralmente com câmaras IMAX. No primeiro fim de semana de exibição, o filme arrecadou 230 milhões de euros nas bilheteiras mundiais. Em Portugal, os dados do ICA indicam que, até quinta-feira 6 de agosto, o filme gerou uma receita superior a 3,6 milhões de euros.

Antes de partirmos mundo fora para explorar os locais onde este épico foi filmado, talvez seja importante recordar a essência da obra que inspirou o filme. Atribui-se a Homero este poema, aventura épica de um homem que demora dez anos a encontrar o caminho de volta a casa. A viagem é longa e cheia de obstáculos, que desafiam a coragem e a prudência de Ulisses ou Odisseu, herói de Troia que, com um cavalo de madeira, conquistou as muralhas troianas.

Das histórias desta guerra contadas na “Ilíada”, a primeira epopeia homérica, parte com 12 naus para “A Odisseia” dos doze mil versos, onde enfrenta deuses e cantos de sereias, feiticeiras que transformam humanos em porcos, gigantes ciclópicos e outros seres extraordinários que o afastam da mítica Ítaca, onde o filho e a mulher o esperam, a paciente e fiel Penélope que desfaz à noite o que teceu durante o dia para iludir os pretendentes que ocupam o palácio e querem apagar Ulisses da sua vida e memória.

A figura de Ulisses povoou o imaginário de um povo que, de boca em boca, mantinha vivos os feitos dos heróis de Troia, uma imensa teia de palavras que ajudou a construir a identidade de uma nação. Os textos que o grego Homero escreveu por volta do século VIII antes da era cristã, antes de os livros do Antigo Testamento estarem terminados, são fundadores da literatura e da cultura da Europa ocidental. Afinal, foi na Grécia Antiga que tudo começou.

Os países onde “A Odisseia” foi rodado

Chegamos à produção épica de “Ulisses”: 91 dias e um objetivo simples, mas ambicioso: “o mundo inteiro”. Foi esta a resposta de Christopher Nolan à sua diretora de arte, Ruth De Jong, quando esta lhe perguntou quais os limites para construir os cenários do seu novo filme. Uma história épica implica uma produção épica? Parece que sim.

A segunda colaboração entre De Jong e Nolan – “Oppenheimer” abriu caminho – não se furtou à megalomania humana, um dos temas centrais da narrativa. “Ambos acreditamos na filosofia de construir fisicamente todo o cenário. Pouco importa se os atores interagem com telas azuis ou verdes. Queríamos que imergissem completamente naquele mundo, assim como o público”, explicou De Jong à “Architectural Digest”.

Então, onde foi filmada “A Odisseia”? Os amargos anos de espera de Penélope (Anne Hathaway) e de Telémaco (Tom Holland), seu filho e de Ulisses (Matt Damon), pelo regresso deste a casa após a Guerra de Troia, bem como a partida de Telémaco em busca de respostas sobre o paradeiro do pai, levaram a equipa a viajar por seis países. A escolha recaiu sobre paisagens imponentes, muitas delas espetaculares: dos penhascos escarpados e águas tempestuosas da Escócia, onde Ulisses encontra Circe (Samantha Morton), às praias de areia preta da Islândia, passando pela remota e deslumbrante costa de Marrocos, lar da ninfa Calipso (Charlize Theron), sem esquecer as filmagens adicionais na Grécia, Itália e Estados Unidos.

Ítaca, o reino de Odisseu, casa de Ulisses, tem no epicentro um palácio da Idade do Bronze, transposto para o Castello di Santa Caterina, uma fortaleza do século XV localizada no topo da ilha de Favignana, no oeste da Sicília. O grande salão do palácio, onde os pretendentes ao trono, liderados por Antínoo (Robert Pattinson), foi construído num estúdio em Los Angeles, um cenário com a dimensão de dois campos de futebol. “Trabalhei muito para que todas as transições entre as cenas ficassem perfeitas, para que ninguém percebesse que estávamos num estúdio”, confessou De Jong à “Architectural Digest”.

A estrutura não linear de “A Odisseia” foi estratégica para o cineasta britânico construir as idas e vindas na trajetória de Ulisses, obrigando o protagonista a confrontar-se com as consequências destrutivas dos seus próprios feitos, num enredo em que os homens que se veem como heróis têm de lidar com a devastação provocada pelos seus ideais.

Sempre que Ulisses e os seus companheiros navegam pelo Mar Mediterrâneo, as filmagens são, efetivamente, em alto-mar. A embarcação principal, com cerca de 35 metros de comprimento, foi encontrada em Stavanger, na Noruega, e transformada num navio de guerra grego. A reconstrução da Guerra de Troia obedeceu aos mesmos princípios. Ou seja, foi filmada, maioritariamente, em Aït Benhaddou, a kasbah classificada pela UNESCO a cerca de 30 km de Ouarzazate, em Marrocos – que já serviu de cenário à conhecida série “Guerra dos Tronos” e a “Gladiador”, filme realizado por Ridley Scott. De Jong construiu cenários numa área superior a um hectare, incluindo o Templo de Atena com seus portões, torres e escadarias. Até oliveiras a produção levou para o local, para tornar o cenário de Aït Benhaddou ainda mais realista.

Não menos importante é o Cavalo de Troia, peça central de um dos famosos estratagemas criados por Ulisses para pôr termo à guerra travada com os Troianos, que já durava há dez anos. Fingindo a derrota, os gregos deixaram, como oferta, um enorme cavalo de madeira às portas das muralhas de Troia. Convencidos da vitória, os Troianos transportaram o cavalo para dentro da cidade e festejaram durante toda a noite. Quando os Troianos, embriagados e cansados, começaram a dormir, guerreiros gregos, entre eles Ulisses, saíram do ventre do cavalo de madeira e atacaram-nos, conquistando por fim a cidade. A gigantesca estrutura oca de madeira usada no filme foi projetada e construída em Los Angeles, no início da produção e, depois, enviada para Marrocos.

A rodagem passou, também, pela costa nordeste da Escócia. Foi aqui, entre as florestas de pinheiros e as falésias sobre o Mar do Norte, que Christopher Nolan recriou a misteriosa ilha de Eana (Aeaea). E pelo Peloponeso, território dos Ciclopes na Grécia, pontuado por praias, grutas e castelos, como o de Methoni, transformado no palácio de Menelau e de Helena de Troia, interpretados por Jon Bernthal e Lupita Nyong’o.