A SpaceX, empresa de satélites, foguetões e inteligência artificial (IA) liderada por Elon Musk, foi integrada em vários índices bolsistas de forma acelerada, após a sua estreia em bolsa a 12 de junho. O Nasdaq, o Russell e o FTSE alteraram as suas regras para permitir uma inclusão mais rápida da empresa. Atualmente, investidores em vários índices passam a ter uma exposição indireta à cotada, mesmo sem terem comprado diretamente ações da empresa.

A integração começou a 22 de junho, com a entrada nos índices do Russell, e a 29 de junho nos índices do Russell norte-americano, incluindo o Russell Top 50, Russell Top 200 e Russell 1000. No FTSE GEIS, a empresa está presente no Global All Series, FTSE All-World, FTSE World Index e FTSE Global Total Cap. A 7 de julho, a SpaceX integrou o Nasdaq. Nos índices do MSCI, a empresa tornou-se elegível desde 26 de junho. Contudo, o S&P 500 não alterou as suas regras, o que significa que a empresa só poderá ser incluída, na melhor das hipóteses, um ano após a estreia.

Esta integração rápida tem implicações significativas para os investidores. Segundo Henrique Valente, analista da ActivTrades, a inclusão é “particularmente benéfica” para a SpaceX, pois “aumenta a liquidez e gera compras automáticas” por parte dos fundos que replicam os índices. Com apenas uma pequena percentagem do capital disponível em bolsa (free float), a procura passiva pode ter um efeito desproporcionado sobre a cotação. As ações acumulam uma valorização de 1% face ao preço da IPO.

Para os investidores de retalho expostos através de ETFs, o impacto tende a ser limitado devido ao reduzido peso relativo da empresa nos índices. O efeito é mais relevante para os investidores institucionais e fundos passivos, que são obrigados a ajustar as suas posições. João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, destaca que a inclusão permite aos investidores “participarem no potencial de crescimento” da empresa, um dos nomes mais relevantes nos setores espacial, telecomunicações por satélite e infraestruturas de IA. “A presença num índice comporta normalmente maior visibilidade, liquidez e acompanhamento por parte da comunidade financeira”, acrescenta.

… Mas há riscos

No entanto, os riscos não devem ser ignorados. João Queiroz salienta que o principal risco não reside na qualidade da empresa, mas na “rapidez” da integração. Históricamente, os fornecedores de índices exigiam períodos mínimos de negociação, níveis mínimos de free float e demonstrações consistentes de rentabilidade. No caso da SpaceX, vários requisitos foram flexibilizados, o que pode levar a distorções temporárias na avaliação de mercado, uma vez que os fundos passivos compram a empresa numa fase inicial de descoberta de preço.

Atualmente, estão disponíveis em bolsa 11,8% das ações. Existem várias datas programadas para o fim do período de lockup, que permitirão a entrada de mais ações no mercado. O calendário inclui datas em agosto, setembro, outubro e dezembro de 2026, e em 2027, com a libertação progressiva de mais ações, até atingir 100% em setembro de 2027, incluindo as ações do CEO, Elon Musk.

João Queiroz também aponta um “potencial desalinhamento” entre investidores em ações e obrigacionistas. Enquanto os primeiros focam no crescimento futuro, os segundos analisam a capacidade de gerar fluxos de tesouraria sustentáveis. A avaliação da SpaceX depende fortemente da execução de projetos em setores como o espacial, conectividade global e IA, o que pode gerar leituras diferentes sobre o valor intrínseco da empresa.

Outro aspeto é a natureza dos fluxos passivos. A rápida integração gera procura por parte de ETFs e fundos indexados, suportando a cotação. Contudo, à medida que os lockups expirarem e mais ações entrarem em circulação, o aumento da oferta poderá reduzir o prémio de escassez. A inclusão em índices pode amortecer a pressão vendedora, mas não a elimina.

Henrique Valente considera a alteração das regras “discutível”, pois adaptar critérios para acomodar um caso específico pode levantar dúvidas sobre a consistência e independência dos índices. “Embora seja compreensível querer refletir rapidamente a dimensão da SpaceX, teria sido mais prudente manter critérios uniformes ou aplicar uma entrada gradual”, afirma.

João Queiroz sublinha que a integração acelerada representa uma “alteração relevante” na exposição de milhões de investidores. Qualquer investidor que detenha ETFs ou fundos indexados passa a ter uma participação indireta na SpaceX, sem decisão explícita de investimento. Este fenómeno abrange investidores de retalho, fundos de pensões, seguradoras e grandes gestores institucionais.

A avaliação da alteração das regras “não tem” resposta absoluta. Os defensores argumentam que os índices devem refletir o mercado tal como ele existe, adaptando-se à emergência de megaempresas privadas. Os críticos defendem que os critérios históricos foram criados para proteger os investidores de riscos associados à liquidez, transparência e maturidade operacional. Alterar regras para acomodar um único emitente cria um precedente.

No caso do S&P e da Dow Jones, optaram por não alterar as regras, mantendo requisitos tradicionais. A integração da SpaceX nos principais índices é complexa e não deve ser interpretada de forma binária. O que acontece é uma redistribuição do risco específico da cotada por um universo mais alargado de investidores.

Em suma, ganha-se acesso indireto a uma empresa potencialmente transformadora, maior representatividade dos índices e liquidez acrescida. Mas aceita-se maior exposição a uma avaliação exigente e a um processo de inclusão excecionalmente acelerado. A questão central é se a velocidade da integração permitiu que o preço refletisse adequadamente os riscos e oportunidades antes de os investidores passivos assumirem essa exposição.