Durante demasiado tempo, a Europa habituou-se a falar de inovação, competitividade e autonomia estratégica como se bastasse aprovar estratégias, anunciar metas e regular melhor. Mas a competitividade não se decreta. Constrói-se. E constrói-se com empresas que nascem, crescem, escalam e ficam na Europa.
Foi isso que ficou claro no início deste mês, em Bruxelas, numa Start-up/Scale-up Summit que promovi no Parlamento Europeu. Dos debates com fundadores, gestores, investidores e decisores políticos, ficou clara uma conclusão difícil de ignorar: a Europa tem talento, investigação e empreendedores, mas continua a falhar no momento decisivo, quando as empresas precisam de crescer.
O primeiro desafio é cultural: a Europa precisa de uma relação mais saudável com o risco, dos empreendedores aos investidores. Uma economia que penaliza o erro dificilmente gera empresas capazes de competir globalmente.
Porém, há também um desafio financeiro por resolver. A Europa apoia bem a criação de start-ups, mas tem enorme dificuldade em financiar scale-ups. Quando chegam a uma fase mais avançada, muitas empresas europeias procuram financiamento fora da Europa, e com ele vêm redes, clientes e, muitas vezes, a transferência gradual da sede e do talento. Não perdemos apenas uma empresa. Perdemos propriedade intelectual, emprego qualificado e capacidade industrial. Perdemos futuro. Por isso, a mobilização de capital privado de longo prazo tem de passar para o centro da política económica europeia.
No que respeita à regulação, o desafio é igualmente decisivo. A Europa tem uma vantagem que não deve desperdiçar: a confiança que resulta de regras claras e segurança jurídica. Mas essa confiança só será uma vantagem global se a regulação proteger sem sufocar. Uma start-up que quer crescer na Europa continua a encontrar vinte e sete realidades diferentes, com sistemas jurídicos e fiscais que dificultam a expansão. Em teoria, temos um mercado único. Na prática, ainda estamos longe disso. É por isso que a proposta da EU Inc. importa: uma forma societária europeia opcional e digital significa reconhecer que uma empresa deve poder nascer em Lisboa, contratar em Berlim e vender em toda a Europa sem recomeçar a cada fronteira, desde que implementada com ambição.
Falta ainda destacar que a Europa tem investigadores de excelência, mas a transferência de conhecimento da Academia para as empresas – a transformação dos resultados da investigação em produtos, continua muito aquém do desejável. Falta-nos a capacidade sistemática para conseguir transformar conhecimento em crescimento.
A Summit terminou, mas as suas conclusões não podem ficar fechadas nas salas do Parlamento Europeu. A Europa precisa de menos discursos sobre competitividade e de mais decisões que libertem quem quer criar, investir e crescer. A Europa de que precisamos não é apenas a Europa que regula, acompanha ou financia. É a Europa que faz. E, sobretudo, a Europa que deixa fazer. Até porque a competitividade não é apenas um tema económico. É também social e geopolítico.
Sem empresas mais produtivas, não há melhores salários. Sem indústria, não há transição climática. Sem tecnologia própria, não há soberania. Feita esta breve reflexão, a Europa não precisa de escolher entre proteger os cidadãos e deixar crescer as empresas. Aliás, o modelo social só será sustentável se a economia que o financia for competitiva. E a soberania só será real se formos capazes de produzir e reter valor no nosso continente.