Há modas que duram uma estação. Em Wall Street, duram às vezes menos do que isso — o tempo de uma narrativa ganhar tração, ser empacotada num acrónimo elegante e, pouco depois, substituída por outro ainda mais sedutor. Como se o mercado fosse uma passerelle, e as empresas tecnológicas desfilassem ao ritmo das tendências.

Primeiro foram as FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google). Depois, as “Sete Magníficas” com a junção da Tesla e da Nvidia. Pelo caminho, surgiram BATMANN, TACO, NACHO e outros exercícios de criatividade financeira que misturam análise com marketing. Agora, chega mais uma sigla à mesa dos investidores: MANGOS.

A designação — Meta, Anthropic, Nvidia, Alphabet, OpenAI e SpaceX — não é apenas mais um jogo de letras. É também um retrato de um momento específico: o da corrida global à inteligência artificial, onde infraestruturas, modelos e ambições orbitais se cruzam numa narrativa de crescimento quase inevitável. Segundo o El Economista, o termo ganhou força nas últimas semanas e já está a ser apropriado pela indústria financeira para criar novos produtos de investimento.

Mas há algo de particularmente revelador nesta nova “marca”. Ao contrário das FAANG, que assentavam em empresas cotadas e bem conhecidas do público, o grupo MANGOS inclui duas empresas que ainda não chegaram à bolsa: OpenAI e Anthropic. Isto não tem impedido gestores de ativos de avançar com propostas de external traded funds (ETFs) que procuram exposição a estas empresas — recorrendo a derivados ou veículos privados para contornar a ausência de cotação pública.

A ideia pode parecer sofisticada, mas o impulso é simples: captar o entusiasmo em torno da inteligência artificial e transformá-lo num produto vendável. Como noticiou a Reuters, vários gestores já apresentaram pedidos para lançar ETFs baseados neste conceito, tentando capitalizar o momento logo após o mediático IPO da SpaceX. A lógica é a do “concept investing”: mais do que investir em empresas, investe-se numa história.

Essa história, contudo, ainda está por provar. O MarketWatch sublinha que o entusiasmo em torno das MANGOS pode dizer mais sobre a imaginação dos investidores do que sobre uma tese sólida de investimento. Juntar gigantes cotados, startups privadas e uma empresa espacial numa mesma cesta pode ser eficaz como slogan — mas menos convincente como estratégia de longo prazo.

E, no entanto, a tentação é compreensível. A inteligência artificial tornou-se o novo eixo em torno do qual gira o mercado. Se as FAANG representavam a economia da atenção — redes sociais, streaming, comércio online —, as MANGOS prometem simbolizar a economia da infraestrutura: chips, modelos, cloud e conectividade global. Uma mudança de paradigma que ainda está a ser escrita.

O problema é que Wall Street não espera pelo fim da história para vender o enredo

A proliferação de ETFs com nomes memoráveis — alguns quase tão cinematográficos como JEDI ou UFO — mostra até que ponto o marketing se tornou parte integrante do investimento. As siglas simplificam, tornam tangível o abstrato e oferecem aos investidores uma sensação de pertença a uma tendência maior. Comprar um ETF MANGOS não é apenas comprar ações: é comprar a ideia de que se está posicionado no coração do futuro.

Mas há um risco evidente nesta compressão da realidade em seis letras. Como alertam alguns analistas, quando o mercado começa a transformar narrativas em produtos antes de estas serem testadas, a linha entre visão e especulação torna-se ténue — um ponto também levantado pelo MarketWatch.

A história das siglas de Wall Street está cheia de exemplos que brilharam intensamente — e desapareceram com a mesma rapidez.

No fundo, cada novo acrónimo é uma tentativa de responder à mesma pergunta: onde está o poder agora? As MANGOS são apenas a resposta mais recente. Se será duradoura ou apenas mais um episódio na longa tradição de modas financeiras, isso dependerá menos das letras e mais das empresas que lhes dão corpo.

Até lá, Wall Street continuará à procura da próxima palavra mágica.