Corria o ano de 1418 e a cidade de Florença estava num impasse: a construção da Catedral de Santa Maria del Fiore, iniciada oficialmente em 1296 com um projeto do arquiteto Arnolfo de Cambio, não avançava. Faltava a cúpula que, pela escala do edifício, ninguém sabia como resolver.

A “Opera del Duomo”, instituição que financiava as obras e que era alimentada pela República de Florença, por doações provenientes de vários setores de atividade económica, lança um concurso público para a conclusão da cúpula.

Filippo Brunelleschi foi um dos proponentes do concurso. Natural de Florença, começou a sua carreira como ourives e escultor e, em 1401 perde o concurso para as portas do Batistério de Florença, concebidas por Lorenzo Ghiberti. A derrota, contudo, renovou-lhe a vontade de se dedicar à arquitetura e à engenharia. Ruma a Roma onde estuda, com profundidade, as ruínas da Antiguidade e as técnicas construtivas romanas e, a partir dessas observações, desenvolve novas ideias sobre proporção, geometria e construção que rompem com o ideário medieval.

Quando surge o concurso para a cúpula da catedral da sua cidade, obra com uma dimensão nunca vista, sente-se preparado. Mito ou facto, a historiografia diverge, mas consta que, durante o concurso, os responsáveis o questionaram sobre como iria erguer a gigantesca cúpula sem os tradicionais andaimes de madeira, algo que parecia impossível para a época. Ele recusou-se a explicar o método e a revelar detalhes técnicos, mas propôs um desafio: pediu aos presentes que tentassem colocar um ovo em pé sobre uma mesa lisa. Ninguém conseguiu. Brunelleschi, então, bateu levemente a base do ovo na mesa, achatando-a um pouco, e o ovo ficou em pé. Ouviu protestos: “Assim qualquer um consegue!” Retorquiu: “Também diriam que construir a cúpula seria fácil, se vissem como fazê-la.”

Brunelleschi venceu o concurso, num puro ato de fé na sua utopia, e a cúpula começou a ser construída em 1420, tendo ficado concluída, estruturalmente, em 1436. Torna-se num dos grandes génios do Renascimento italiano e é frequentemente considerado como o fundador da arquitetura renascentista.

A relação que o artista estabelece com a família Médici é estrutural para compreendermos a importância do mecenato no contexto do Renascimento italiano. A ascensão económica dos Médici, uma família da Burguesia da Toscana, parte do comércio da lã e sedimenta-se por volta de 1400 com a criação do banco por Giovanni de Bicci. Mas é Cosimo de Medici quem rapidamente compreende que o poder mais duradouro não vem apenas da força militar ou de títulos nobiliárquicos, mas da legitimidade simbólica. E essa legitimidade podia ser construída através do mecenato.

Cosimo (e os seus sucessores) não governaram oficialmente como príncipes. Formalmente, Florença manteve-se como uma república. Mas os Médici compreenderam que quem controla a cultura, a memória pública, a religião e a imagem de prosperidade controla também a perceção do poder. O mecenato era visto como tecnologia política e o apoio às artes, à arquitetura, à Igreja e aos intelectuais não era resultado de simples gosto estético, mas parte de uma estratégia de construção de autoridade social. E a prova desse poder efetivo está no facto de a família ter tido dois papas (Leão X e Clemente VII) e duas rainhas de França (Catarina e Maria de Medici).

Quando Brunelleschi regressou de Roma cheio de ideias inspiradas na arquitetura clássica, os Médici estavam a consolidar o seu poder económico e político em Florença. Cosimo percebeu rapidamente que a nova arquitetura de Brunelleschi podia tornar-se um símbolo do prestígio cultural da família.

Embora a cúpula da catedral não tenha sido um projeto financiado pelos Médici, o sucesso monumental dessa obra fez de Brunelleschi o arquiteto mais prestigiado da cidade e Cosimo aproximou-se dele como patrono. A Basílica de San Lorenzo ou a Capela Pazzi são duas obras fundamentais para compreender a arquitetura do Renascimento e o impacto histórico da estratégia dos Médici, que criou um modelo do mecenas, em que riqueza, poder político e inovação artística se reforçam mutuamente. Esse modelo seria depois seguido por outras famílias italianas e acabaria por definir grande parte da cultura do Renascimento.

A utopia da casca de ovo mudou o mundo e poderia ajudar-nos a compreender, de forma simples, que não basta mudar a Lei do Mecenato, sendo sobretudo necessário que os países tenham, no Estado, o exemplo da importância da construção de uma imagem de vanguarda e de progresso que valoriza e suporta, acima de tudo, a criação artística. Não há, nunca houve, futuro num presente que não valoriza os artistas e as suas obras. Mas, em todo o caso, esta revisão da Lei do Mecenato portuguesa torna-a mais ágil, ampla e vantajosa que a anterior. Voltaremos ao tema.

Para já, fica um apelo ao consumo cultural com a exposição “Reflexos, Enclaves, Desvio” de José Pedro Croft, patente no MAC/CCB, em Lisboa, até 13 de setembro de 2026.