O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, anunciou esta quinta-feira, durante uma audição na Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública (COFAP), que o projeto para a nova sede da instituição foi reformulado. A decisão, tomada por unanimidade pelo Conselho de Administração, substitui o plano aprovado no mandato de Mário Centeno e concentra-se agora no edifício A1, do complexo de Entrecampos, em Lisboa.
O novo projeto prevê um investimento de cerca de 165,87 milhões de euros, abaixo dos 191,99 milhões inicialmente estimados para os edifícios A2 e A3. A redução deve-se, segundo Santos Pereira, a fatores como a política de teletrabalho e a aposta em delegações regionais. “Acreditamos que existe outra solução dentro do complexo de Entrecampos mais adequada às necessidades futuras do Banco de Portugal”, afirmou.
O edifício principal terá capacidade para albergar a totalidade dos 1.433 trabalhadores que atualmente exercem funções em Lisboa, com exceção dos serviços de tesouraria e do museu, que permanecerão na sede histórica. O projeto inclui ainda um novo auditório para cerca de 400 pessoas, que ficará localizado no edifício A3, conforme esclareceu Mário Centeno, ex-governador do banco, em audição posterior.
Centeno criticou a opção por apenas um edifício, defendendo que o A1 é mais pequeno do que a soma do A2 e do A3. “Nos longos meses em que estudámos as opções, o Banco de Portugal não cabia no A1”, afirmou, deixando dúvidas quanto à capacidade do espaço para albergar todos os funcionários.
Santos Pereira garantiu que a solução é adequada, mesmo num cenário mais exigente que prevê cerca de 150 gabinetes individuais para diretores e coordenadores, e sublinhou que a nova abordagem permitirá poupar entre 35 e 40 milhões de euros. O investimento de 165,87 milhões será financiado através da alienação de imóveis do banco, gerando ainda poupanças anuais de 11 milhões de euros em custos operacionais.
Além do valor do acordo “core and shell” com a Fidelidade, acresce um investimento em “fit-out” estimado entre 52 e 62 milhões de euros, abaixo dos 63 a 73 milhões previstos no projeto anterior. O governador assegurou que as alterações não levarão à perda do sinal já pago, de cerca de 57 milhões de euros.
As dúvidas em torno do projeto levaram a Inspeção-Geral das Finanças (IGF) a solicitar informações ao Banco de Portugal. No entanto, Santos Pereira revelou que, segundo um parecer do Banco Central Europeu (BCE), a IGF não tem competência para auditar o banco central por depender do Ministério das Finanças, ao abrigo dos Tratados da União Europeia. O governador manifestou, contudo, disponibilidade para prestar esclarecimentos ao Tribunal de Contas.
Numa outra questão, o governador admitiu ter cometido uma “imprevidência” ao adquirir ações da Jerónimo Martins, Galp Energia, Navigator e Nestlé após a tomada de posse. A operação gerou mais-valias de 3.361 euros, valor integralmente doado à IPSS Make-A-Wish Foundation. “Foi uma imprevidência, sem dúvida, e ninguém lamenta mais essa imprevidência do que eu”, concluiu, assumindo a responsabilidade e reforçando a importância do escrutínio público.