A comunidade Angels Way voltou a investir em inteligência artificial — mas desta vez com um foco menos óbvio: controlar os riscos da própria tecnologia. A comunidade de 436 investidores aprovou a entrada na Coalex AI, uma startup portuguesa que desenvolveu uma plataforma capaz de supervisionar, em tempo real, decisões tomadas por sistemas de IA, garantindo que são seguras, éticas e cumprem a regulação.
“Sabemos que 95% dos projetos de IA não entregam resultados mensuráveis devido à falta de uma camada de confiança e qualidade. A Coalex é esse trust layer”, afirma Carlos Lebre Ribeiro, CEO e cofundador, traçando um paralelismo com os sistemas de pagamento digital: “O nosso objetivo é que a Coalex represente para o uso da IA nas empresas o mesmo que o PayPal e outros sistemas representaram para que hoje não tenhamos qualquer problema em pôr o nosso cartão de crédito online.”
Num momento em que a regulação europeia começa a apertar — com destaque para o EU AI Act, cuja maioria das regras entra em vigor já em agosto — a proposta da Coalex surge alinhada com as novas exigências. A plataforma funciona como uma espécie de “fiscal digital”, avaliando automaticamente as ações de agentes autónomos e decidindo quais podem avançar e quais devem ser travadas para revisão humana.
O sistema atribui um índice de saúde, de zero a cem, às decisões da IA, permitindo uma gestão precoce de riscos e evitando erros com impacto em clientes e negócios. Para setores altamente regulados, como banca, seguros ou saúde, esta camada de controlo pode ser decisiva.
A tecnologia já está a ser testada em contextos reais. No Hospital da Luz, a Coalex participa num piloto para validação automática de protocolos clínicos. Na Fidelidade, o foco está na garantia de compliance dos sistemas autónomos.
A equipa fundadora traz experiência de peso: passou por dois unicórnios portugueses — Talkdesk e Feedzai — e pela Comissão Europeia, além de já ter concretizado um exit. Agora, com o reforço da Angels Way, a prioridade é evoluir o produto e preparar a expansão internacional, com olhos postos na Europa, Estados Unidos e Brasil a partir de 2027.
Este é o 12.º investimento da Angels Way, um fundo lançado em 2025 pela Olisipo Way e gerido pela OW Ventures. Com um modelo participativo pouco comum — onde centenas de pequenos investidores analisam e votam os projetos — o fundo está a construir um portfólio cada vez mais centrado em soluções de IA com ambição global.
Para fazer estas apostas, os 436 pequenos investidores que compõem este coletivo inovador selecionaram, analisaram, discutiram e votaram mais de 100 projetos candidatos ao longo de mais de 200 sessões de trabalho.
Lançado pela Olisipo Way, uma early stage venture firm focada na área da tecnologia, o Angels Way iniciou operações no início de 2025 e é gerido pela OW Ventures, uma SCR criada de raiz para o efeito. É o primeiro fundo regulado pelo supervisor financeiro português em que os investidores participam ativamente na identificação, análise e decisão dos investimentos.
O objetivo do fundo é identificar e apoiar as startups mais promissoras em Portugal, com investimentos fixos de 50 mil euros. No total, o fundo investirá um milhão de euros em 20 startups. Mas a comunidade vai mais além, participando ativamente na monitorização dos projetos. Para cada startup investida, existe um grupo dedicado que trabalha em estreita colaboração com os fundadores para apoiar o seu crescimento, nomeadamente através de mentoria e rede de contactos.
“A adoção de IA cresce a um ritmo acelerado, e com ela crescem também os riscos e as falhas de compliance”, sublinha Luís Filipe Gutman, managing partner da OW Ventures. “Investir na Coalex fez todo o sentido.”
Num ecossistema onde a corrida à inteligência artificial continua a acelerar, a aposta da Angels Way sugere uma mudança de foco: mais do que criar IA, o próximo grande desafio pode ser garantir que ela merece confiança.