A Coface, seguradora global especializada em seguro de crédito comercial, gestão de risco e proteção financeira, prevê que a economia portuguesa cresça 1,6% em 2026, num contexto global marcado pelo agravamento dos riscos geopolíticos, pela subida dos custos da energia e pela fragmentação do comércio internacional. A nível mundial, a instituição reviu em baixa a estimativa de crescimento para 2,3%, menos três décimas face às previsões de fevereiro.
As projeções foram apresentadas em Lisboa, durante o Evento Risco País da Coface, que reuniu especialistas em economia, geopolítica e comércio internacional para analisar os principais desafios que se colocam às empresas e aos investidores.
Segundo a Coface, o atual enquadramento internacional é caracterizado por uma crescente interdependência entre economia e geopolítica, com impactos diretos nas cadeias de abastecimento e nos custos empresariais. As tensões no Médio Oriente, em particular o risco de perturbações no estreito de Ormuz — por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial —, surgem como um dos principais fatores de instabilidade, com potenciais efeitos em setores como transporte, indústria automóvel, fertilizantes e tecnologia.
Durante a conferência, Bruno de Moura Fernandes, Head of Macroeconomic Research da Coface, alertou para o risco de estagflação e para a pressão crescente sobre as margens das empresas. “Os preços estão a aumentar a um ritmo consideravelmente superior ao dos preços de venda, o que está a exercer uma pressão crescente sobre a rentabilidade das empresas”, afirmou.
O economista destacou ainda o impacto das tensões comerciais, num cenário em que, apesar de alguma moderação por parte dos Estados Unidos, o protecionismo permanece elevado. A crescente desconexão entre as economias norte-americana e chinesa poderá intensificar a entrada de produtos chineses na Europa, agravando a pressão competitiva sobre a indústria europeia, incluindo a portuguesa, cuja recuperação industrial continua abaixo dos níveis pré-pandemia.
Neste contexto, a Coface estima que as insolvências empresariais aumentem 6% a nível global em 2026, atingindo valores superiores aos registados antes da pandemia e os mais elevados da última década.
Apesar dos riscos, Portugal é identificado como um país com oportunidades relevantes. Carlos Andrade, Chief Economist do novobanco, destacou o potencial do país enquanto “connector country”, beneficiando da sua localização geográfica, estabilidade política, capital humano qualificado e custos competitivos. A aposta em energias renováveis e em setores tecnológicos poderá reforçar a atratividade nacional, sobretudo em áreas como a economia digital e os data centers.
Também Bernardo Ivo Cruz sublinhou o papel estratégico de Portugal num mundo mais fragmentado, defendendo que o país poderá tirar partido da sua capacidade de diálogo com diferentes regiões e da sua tradição de abertura ao exterior.
Para Cláudia Vasconcelos, Country Manager da Coface em Portugal, o atual contexto reforça a importância da gestão do risco: “Abrir-se ao exterior já não é uma opção, mas uma necessidade — e fazê-lo com segurança é hoje o grande desafio das empresas”.
A Conferência de Risco País da Coface consolidou-se, assim, como um espaço de análise e reflexão sobre um ambiente económico global cada vez mais volátil, onde a antecipação e a adaptação se tornam determinantes para a tomada de decisões estratégicas.