É a data mais importante da história recente da SpaceX. 12 de junho de 2027. É a partir daqui que ficam disponíveis no mercado e que podem ser negociadas,96% das ações da empresa, incluindo a participação de 43% de Elon Musk, o fundador. Em setembro de 2027, atinge-se os 100%. Atualmente, só menos de 5% das ações estão registadas para serem transacionadas no mercado de capitais, o que faz diferença.
Mas que efeito é que o fim dos vários períodos de lockup, que vão de agosto de 2026 a setembro de 2027, podem ter na bolsa?
“A reduzida percentagem de ações inicialmente disponível para negociação sugere que os movimentos iniciais da cotação refletiram, em larga medida, fatores técnicos de oferta e procura. Por esse motivo, as futuras fases de desbloqueio assumem especial relevância para o comportamento do mercado”, explica o head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, ao Jornal Económico (JE).
João Queiroz refere que quando o número de ações disponíveis para negociação “aumenta substancialmente”, o prémio de escassez que ajudou a sustentar a valorização inicial “tende a diminuir”, e que o reduzido número de ações inicial contribuiu para “amplificar a pressão compradora e impulsionar” a cotação. “À medida que novas ações entram em circulação, esse efeito tende a enfraquecer”, sublinha.
Mas isso “não significa necessariamente uma correção acentuada”, refere. “Se a procura institucional e de retalho permanecer robusta, o mercado poderá acomodar a nova oferta sem impactos significativos. Pelo contrário, se o interesse dos investidores abrandar, a expansão do float [quantidade de acções disponíveis] poderá exercer pressão sobre os preços”, alerta.
João Queiroz adianta que existe outro fator adicional: “o elevado volume de posições curtas registado recentemente. Enquanto a oferta permanecer relativamente limitada, continua a existir potencial para episódios de “short squeeze”, em que investidores vendidos são obrigados a recomprar ações, impulsionando temporariamente a cotação. Com o aumento gradual do número de ações disponíveis, esse risco tende a diminuir. Importa igualmente referir que a recente emissão de dívida demonstra que a empresa procura diversificar as suas fontes de financiamento. Embora esta estratégia não tenha impacto direto sobre os desbloqueios de ações já emitidas, poderá reduzir a necessidade futura de recorrer a diluitivos aumentos de capital”, explica o head of trading do Banco Carregosa.
“O lockup de Musk e de outros insiders tem uma duração de 366 dias, enquanto os restantes investidores pré-IPO estão sujeitos a um lockup de 180 dias. Ainda assim, isso não implica que haverá necessariamente um sell-off [venda rápida]. O impacto dependerá da capacidade do mercado para absorver esta nova oferta”, explica o analista da ActivTrades Europe, Henrique Valente.
João Queiroz salienta que a decisão da SpaceX por um modelo de libertação gradual, em vez de um desbloqueio único ao fim de 180 dias, “reduz o risco de um choque concentrado” de oferta. “Contudo, prolonga a incerteza ao longo de vários trimestres, atendendo que cada data de desbloqueio poderá reavivar o debate sobre a avaliação da empresa e sobre a disposição dos acionistas em realizar ganhos”, explica.
O estrategista da 22V Research, Jeff Jacobson, citado pelo Yahoo Finance, referiu que estas libertações significativas [de acções] provavelmente “exercerão uma pressão considerável” sobre as ações, mas o aumento da liquidez das ações também “deverá reduzir a volatilidade diária” da empresa, dada a sua grande capitalização bolsista.
Contudo João Queiroz salienta que existem fatores “potencialmente estabilizadores”. Um eles é a “rápida integração” em índices internacionais que “poderá gerar fluxos de compra por parte de fundos passivos e external traded funds (ETF), contribuindo para absorver parte” da nova oferta.
“Ainda assim, esses fluxos tendem a ser calculados com base no capital efetivamente disponível para negociação, o que limita a sua capacidade para neutralizar integralmente o impacto dos desbloqueios. Em termos práticos, o calendário de lockup não determina o rumo ou trajetória da cotação, mas aumenta a probabilidade de volatilidade próxima das datas previamente conhecidas (permite ajustar expetativas), mantendo a cotada sob um escrutínio mais intenso do que seria habitual num IPO com uma estrutura de bloqueio convencional”, acrescentou o head of trading do Banco Carregosa.
A SpaceX desde 22 de junho está em vários índices globais do FTSE (Global All Series, FTSE All-World, FTSE World Index, FTSE Global Total Cap) e na segunda-feira entra nos índices norte-americanos do FTSE (Russell Top 50, Russell Top 200, Russell 1000) e nesta data passa também a estar elegível para entrar nos índices da MSCI. A inclusão do Nasdaq é possível a partir de 6 de julho. Quanto ao S&P 500 poderá entrar na melhor das hipóteses um ano após a sua estreia em bolsa que ocorreu a 12 de junho.
“Os investidores otimistas em relação à SpaceX apontarão para as inclusões na Nasdaq e no MSCI, que provavelmente ocorrerão nas próximas semanas, e que poderão ajudar a compensar parte da pressão vendedora esperada devido às libertações”, acrescentou Jeff Jacobson.
“Um dos fatores que poderá contribuir para a procura é a inclusão da SpaceX em vários índices relevantes. A empresa já foi adicionada ao CRSP, FTSE Russell e MSCI em junho, e deverá entrar no Nasdaq-100 no início de julho, o que poderá gerar compras passivas relevantes por parte de fundos que replicam esse índice. Já no S&P 500, o processo deverá ser mais lento, uma vez que a empresa ainda terá de cumprir alguns requisitos, incluindo histórico de negociação pública e rentabilidade. Será interessante acompanhar o preço das ações no primeiro ano de negociação e perceber se os investidores terão apetite para uma empresa com uma valorização tão elevada”, refere o analista da ActivTrades Europe, Henrique Valente.
Questionado sobre se se poderia verificar uma pressão compradora, com os vários desbloqueios das ações da SpaceX, João Queiroz adiantou que o “elevado volume de negociação por parte do retalho, a forte atividade em ETF alavancados e o crescente interesse por ativos tokenizados” sugerem a existência de uma “base significativa” de investidores interessados na SpaceX.
“Por outro lado, parte substancial da avaliação da SpaceX assenta em expectativas de crescimento futuro e não apenas nos resultados atuais. Empresas com este perfil tendem a ser mais sensíveis a alterações no sentimento dos investidores, nas taxas de juro ou nas perspetivas macroeconómicas. A experiência de outros grandes IPO’s sugerem que não existe um padrão único. Em alguns casos, a procura regressa com força após os desbloqueios, sobretudo quando os resultados financeiros reforçam a tese de crescimento. Noutros, a entrada de novas ações no mercado coincide com correções significativas”, diz o head of trading do Banco Carregosa.
Outro fator a levar em conta, salienta João Queiroz, é o setor tecnológico. O head of trading do Banco Carregosa considera que a possibilidade de novas entradas em bolsa de empresas de grande dimensão [Anthropic e OpenAI já manifestaram junto do regulador a intenção de entrar em bolsa] “poderá atrair” capital adicional para o segmento, beneficiando indiretamente a SpaceX. “Em contrapartida, esse mesmo capital poderá ser distribuído por várias oportunidades de investimento, reduzindo a concentração de procura que caracterizou o IPO”, acrescenta.
“Por isso, embora a pressão compradora possa reaparecer em determinadas fases, é provável que o comportamento dos investidores passe a depender cada vez mais da execução operacional da empresa e menos do entusiasmo inicial associado à estreia em bolsa”, considera João Queiroz.
Mas estariam os atuais detentores de ações em lockup disponíveis a vender terminado o período de bloqueio? “Esta é, provavelmente, a variável mais difícil de antecipar, atendendo que resulta da combinação de fatores financeiros, fiscais, estratégicos e comportamentais”, diz João Queiroz.
“Além disso, a existência de mercados de derivados permite que muitos acionistas não tenham de esperar pelo fim do período de lockup para gerir o risco associado às suas posições. Através de opções ou outras estratégias de cobertura, podem desde já fixar níveis de preço considerados atrativos, reduzir a exposição económica ou proteger ganhos potenciais, o que significa que a decisão de vender após o desbloqueio não dependerá exclusivamente das condições de mercado nesse momento”, acrescenta.
Contudo, João Queiroz refere que um dos principais incentivos à alienação de ações continua a ser a “diversificação patrimonial”. O head of trading salienta que muitos colaboradores e investidores iniciais têm uma parte substancial da sua riqueza concentrada na SpaceX. “Nestas circunstâncias, é frequente que optem por realizar uma parcela da posição logo que tal seja possível, não por falta de confiança no potencial da empresa, mas por uma gestão prudente do risco financeiro pessoal”, explica.
“A evolução da cotação na proximidade de cada desbloqueio será igualmente determinante”, considera João Queiroz. “Quanto maior for a valorização acumulada, maior tende a ser a tentação de materializar ganhos. Em contrapartida, se a ação estiver a negociar próxima do preço de entrada ou abaixo dele, muitos investidores poderão preferir adiar a venda, aguardando uma valorização mais favorável”, adianta.
Mas no que diz respeito aos fundadores e dos acionistas de referência João Queiroz considera que a lógica pode ser diferente. “As suas decisões estarão frequentemente associadas a necessidades de liquidez, financiamento de novos projetos, planeamento patrimonial ou considerações estratégicas de longo prazo, mais do que a oscilações de curto prazo da cotação”, esclarece.
Mas mesmo neste contexto o head of trading do Banco Carregosa considera “razoável admitir” que uma parte dos atuais detentores aproveite os vários momentos de desbloqueio para “reduzir gradualmente” a exposição à empresa.
“No entanto, a intensidade dessa pressão vendedora dependerá do enquadramento de mercado, da evolução do preço das ações, das alternativas de cobertura já utilizadas e dos objetivos específicos de cada grupo de acionistas. Por esse motivo, dificilmente se observará um comportamento homogéneo ou uma vaga de vendas uniforme em todas as datas de libertação previstas”, conclui.