A crise política na Ucrânia, marcada por sucessivas demissões em cargos governativos e posições-chave, culminou com a demissão do ministro da Defesa, Mikhail Fedorov. Este episódio reflete a profunda divisão nas elites políticas do país, resultado do insucesso da campanha militar contra a Rússia e da busca por estratégias alternativas.
As forças armadas ucranianas não conseguiram recuperar terreno e recuam diariamente. Em contextos de guerra, quem está a perder não costuma substituir o ministro da Defesa nem o chefe militar no meio da batalha. No entanto, manifestações em apoio a Fedorov ocorreram em várias cidades, exigindo seu retorno e criticando Zelensky. Para aliviar a pressão, Zelensky ofereceu outros cargos, mas Fedorov recusou.
Um ponto central do conflito era a tensão entre Fedorov e o general Syrsky, chefe do Estado-Maior, sobre a condução das operações. Fedorov queria interferir em questões táticas, algo que historicamente gera maus resultados. Ele e seus apoiadores ocidentais defendiam o uso massivo de drones para atingir o território russo, evitando os imbróglios políticos dos mísseis de longo alcance. Apesar da lógica estratégica, Fedorov ignorou que a vitória exige ocupação de terreno, o que demanda soldados, recurso escasso na Ucrânia.
Após intensas pressões, Zelensky demitiu Syrsky, nomeando o general Drapaty, próximo de Fedorov. Isso mostra o estreitamento da margem de manobra de Zelensky, que também perdeu seu chefe de gabinete, Andriy Yermak, em meio a um escândalo de corrupção. Seu substituto, Kirill Budanov, não tem a mesma proximidade com Zelensky, que ainda mantém aliados como David Arakhamia.
Fedorov, que foi ministro da Transformação Digital de 2019 a 2026, modernizou as Forças Armadas. Em 2022, lançou o programa “Drones do Exército” com a plataforma UNITED24, financiando drones e treinando pilotos. Em 2023, criou as primeiras companhias de ataque com UAV e a plataforma Brave1 para arrecadar fundos. Também estabeleceu mais de 20 escolas de operadores e incentivou a montagem caseira de drones.
Em julho de 2025, com o comissário europeu Andrius Kubilius, lançou o BraveTech EU, financiando startups de defesa europeias e testando produtos na Ucrânia. Negociou financiamento com a ex-ministra britânica Rachel Reeves e usou estruturas da UE para fornecimento de drones. Essa atuação lhe rendeu enorme rede de contatos no complexo industrial-militar ocidental, elevando sua visibilidade e possivelmente alimentando ambições políticas.
Pesquisas recentes mostram Fedorov com 13,4% das intenções de voto, atrás de Zelensky (22,3%) e Zaluzhnyi (14,9%). Alguns analistas sugerem que sua demissão visa eliminar um rival emergente. O The Times noticiou que Fedorov foi encorajado a fundar um partido anticorrupção, e sua popularidade crescente alimenta especulações sobre uma possível corrida presidencial.
As manifestações em seu apoio, coordenadas em várias regiões, podem não ser espontâneas, mas parte de uma estratégia de “revolução colorida”, com envolvimento externo. Enquanto a Rússia não impuser custos suficientemente altos, a Ucrânia não buscará negociações. Se Fedorov chegar ao poder, alinhado a Londres, o conflito tende a se intensificar, sem solução pacífica à vista. Ele é o homem certo no lugar certo para os interesses ocidentais.