Portugal apresenta uma evolução do setor da distribuição alimentar com sinais mistos em 2025: por um lado, evidencia crescimento superior à média europeia e recuperação em termos reais; por outro, mantém pressão no volume e fragilidade em alguns canais-chave, revela um estudo da McKinsey e da Eurocommerce sobre o retalho em 2025 e perspetivas para 2026.

O mercado alimentar em Portugal cresceu 5,2%, acima dos 3,1% registados na Europa, “refletindo um maior dinamismo global do setor. Este desempenho é particularmente relevante ao considerar que Portugal apresenta também crescimento em termos reais (2,3% vs 0,5% na Europa), o que indica uma recuperação efetiva do consumo, para além do efeito inflacionista”. Ainda assim, esta recuperação não é homogénea. Em termos de volume, o mercado português mantém-se em contração (-0,5% vs +0,6% na Europa).

Um dos elementos estruturais do mercado português continua a ser o peso da marca própria, que atinge 47,7% das vendas, significativamente acima da média europeia (40,0%). Este posicionamento confirma Portugal como um dos mercados mais avançados da Europa nesta dimensão. Ao nível promocional, observa-se uma redução da intensidade promocional em Portugal (-1,5 pontos percentuais, p.p.), em contraste com uma ligeira subida na Europa (+0,2 p.p.), refere ainda o estudo.

Online perde peso

No que respeita a canais, destacam-se sinais de fragilidade em segmentos tradicionalmente relevantes. O canal online regista uma quebra significativa em Portugal (-13,9%), contrastando com o crescimento observado na Europa (+6,8%). De forma semelhante, o segmento de discounters apresenta uma contração acentuada (-4,3%), enquanto na Europa cresce (+5,0%), indicando uma divergência relevante face à tendência europeia. Por outro lado, o crescimento do food service (+2,8%), embora positivo, fica aquém da média europeia (+4,3%).

Ao nível do comportamento de compra, os dados revelam sinais de ajustamento do consumidor português: o tamanho do cabaz aumenta (+1,5%), em contraste com a contração observada na Europa (-1,8%); e a frequência de compra diminui de forma mais acentuada (-2,1% vs +2,4% na Europa).

Por fim, “destaca-se a evolução da confiança do consumidor, que apresenta uma melhoria em Portugal (+0,8%), em contraste com a deterioração observada na Europa (-0,9%).

Europa: margens sob pressão

A distribuição alimentar europeia encerrou 2025 “num contexto de estabilização com baixo crescimento e pressão persistente sobre a rentabilidade. As vendas de bens alimentares cresceram 3,4% na Europa (face a 2,4% em 2024), impulsionadas por uma inflação de 2,9% nos preços e por um aumento de volume de 0,6%, registando assim crescimento em termos reais – ajustado à inflação – pelo segundo ano consecutivo, segundo o relatório.

O ‘The State of Grocery Retail 2026: Europe’, que reúne a perspetiva de mais de 35 executivos do setor e de mais de 15 mil consumidores em 14 países europeus, indica que o mercado alimentar continua sob pressão, mas começam a surgir sinais de novo dinamismo, “especialmente na defesa das margens, na procura de crescimento para além do core e na adoção de tecnologias (IA e automação) com impacto real no negócio”. Em termos de novas fontes de receita, o retail media destaca-se como a mais escalável para monetizar tráfego e dados próprios.

Em 2026, 25% dos líderes do setor alimentar esperam uma melhoria das condições de mercado (vs. 16% no ano anterior), enquanto 36% antecipam um agravamento (vs. 29% em 2025). Segundo o relatório, oito em cada dez CEOs (77%) colocam a pressão sobre custos e margens entre as suas principais prioridades. “A análise revela também maior polarização regional: no Norte da Europa, 63% dos executivos antecipam melhorias, enquanto na Europa Ocidental apenas 11% partilham essa expectativa”.

Já o comportamento do consumidor apresenta sinais crescentes de estabilização. “A intenção de poupança diminuiu ligeiramente na Europa (-2 p.p. face a 2024), embora os discounters e as marcas próprias continuem a ganhar quota (0,3 e 0,4 p.p., respetivamente) em 2025. Neste contexto, a marca própria consolida-se como um pilar estrutural do setor”. Na Europa, atinge uma quota de 40% em 2025, e cerca de 90% dos consumidores afirma que continuará a comprá-la ao mesmo nível ou superior.

Olhando para 2026, embora se antecipe um ligeiro aumento do volume, existem diferenças significativas entre segmentos de rendimento e geografias, indicando uma evolução nas necessidades dos consumidores. Espera-se que os retalhistas reforcem a oferta de marca própria, explorem oportunidades de crescimento seletivo fora do core, ganhem escala e acelerem a implementação de inteligência artificial. Em conjunto, estes movimentos sugerem que, apesar da pressão contínua, o setor apresenta sinais de um novo dinamismo.

O estudo refere finalmente que a atividade de concentração no setor registou um aumento, com 28 transações anunciadas ou concluídas em 2025 na Europa, face a 19 em 2022.