Há uma constante na vida, contra que não vale a pena fazer qualquer esforço é a passagem do tempo. Independentemente do que queiramos e possamos, o calendário nunca volta para trás, e cada dia que passa significa que temos um dia menos para atingir o que nos tenhamos proposto.
Esta óbvia constatação tem efeitos particularmente visíveis, que podem ser de duas naturezas, uma optimista e outra pessimista, se a encararmos à luz de prazos que estejam fixados. Cada dia que passa é um dia a menos. Mas dependendo da natureza do que esse prazo marca, esse efeito pode ser positivo ou negativo.
Para mim, por exemplo, a aproximação das férias é um facto positivo. Mas há muitas situações em que a passagem do tempo é um facto negativo. Cada dia de guerra na Ucrânia, ou no Médio Oriente, é negativo.
No quadro político em que vivemos actualmente em Portugal, estamos a ponto de ver se para o Governo a passagem do tempo é positiva ou negativa. O quadro fundamental para avaliar essa questão é o grau de cumprimento do Programa de Governo (e esqueçamos aqui o programa eleitoral).
Convenhamos – neste momento o cenário não parece ser famoso, e muitas das áreas em que o Governo se apresentou com um discurso mais incisivo, as concretizações não correspondem ao que tinha sido anunciado. É o caso da Saúde, o mais gritante. Mas também na Justiça, em boa parte na Educação, na Habitação e noutras áreas, continuamos a aguardar pela apresentação das medidas que foram anunciadas. A área da Reforma do Estado, que foi anunciada como um dos grandes objectivos programáticos do Governo, tem produzido pouco mais do que reorganizações de serviços e algumas medidas tendentes a reduzir a burocracia, o que sem qualquer dúvida é louvável. Mas que adianta pouco em termos de uma verdadeira Reforma, que implica repensar verdadeiramente quais são as missões do Estado e qual a estrutura que o Estado deve ter para cumprir essas missões. E a reforma laboral tarda, sendo, do meu ponto de vista, particularmente preocupante o facto de o Governo não estar tão apostado quanto seria desejável, em construir soluções tão consensuais quanto possíveis para evitar quadros de ruptura que terão consequências muito mais gravosas.
Na realidade, as maiores realizações do Governo têm sido nos domínios da legislação sobre emigração e nacionalidade, onde, paradoxalmente, se avançou para resolver um problema que na realidade não existia a não ser nas proclamações mais histriónicas do Chega, sendo duvidoso que se tenha conseguido criar um quadro de solução para as situações que verdadeiramente existiam. Enfim, como se diz hoje em dia, é o que é.
É claro que o contexto externo não tem sido favorável, e que as dificuldades causadas pela guerra tanto ao nível do aumento das despesas em defesa e pela crise do abastecimento de energia resultam em tensões económicas e financeiras muito graves, que podem pôr em risco o equilíbrio financeiro do País e que poderão levar à necessidade de se avaliarem opções e decisões mais drásticas. O problema é que as decisões drásticas implicam coragem, e a coragem em termos políticos é sempre vista como um artigo muito custoso em termos eleitorais.
Lembro-me de alguém que em tempos disse “se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, que se lixem as eleições”. É uma frase impactante, e com efeito potencialmente poderoso – sobretudo se a atitude real for coincidente com ela. No tempo que lhe falta Luis Montenegro lembrar-se-á dela?