O sol da manhã inunda os jardins da Albuquerque Foundation, em Sintra. Os derradeiros detalhes da montagem de “O Fundo do Mundo” decorrem com serenidade. A exposição reúne obras que têm percorrido diferentes continentes, mas será a primeira vez que são exibidas em Portugal. Grada Kilomba distribui abraços e trata toda a gente pelo nome. Não é uma diva. Cultiva a serenidade do olhar, a fisicalidade do afeto. A artista multidisciplinar, escritora e teórica portuguesa regressa a casa, ao concelho que a viu nascer e crescer. Formou-se em psicologia e psicanálise em Lisboa e rumou à Alemanha, onde se doutorou. Fez de Berlim a sua nova casa há mais de duas décadas. Lecionou na Universidade Humboldt até ao dia em que a sua investigação e prática artística lhe exigiram uma entrega total.

A relação com o corpo, o movimento, ficou-lhe sempre. A menina que queria ser bailarina mas se adentrou no método que desbrava o inconsciente tem na performance uma expressão que lhe é natural, orgânica. Mas também o vídeo, a instalação, a escultura, o desenho, as paisagens sonoras. Espraiar-se é o verbo. Não poderia ser de outra maneira. “Eu questiono muito o papel de ser artista”, diz Grada Kilomba. Mas não tem dúvida de que esse papel “é pegar nas coisas mais difíceis da humanidade, para as quais nós não temos uma linguagem, e criar obras que nos dão uma linguagem para falar sobre aquilo que é impensável falar. Ou porque é apagado, ou porque é esquecido, ou porque é proibido, ou porque causa vergonha, medo, culpa, ansiedade.” Na sua voz serena, quase sussurrante, prossegue. “A arte é esse lugar onde, poeticamente, com uma linguagem muito bela, nós podemos convidar o público a refletir sobre algo que é muito difícil refletir e que nos torna mais humanos.”

Após décadas de trabalho internacional desenvolvido a partir de Berlim, esta exposição marca o regresso da artista a Portugal e apresenta um conjunto de obras inéditas no país, entre as quais 18 Verses (2022), Labyrinth (2024) e Opera to a Black Venus (2024), produzidas nos últimos dois anos para instituições internacionais, como o Kunsthalle Baden-Baden, na Alemanha, e o Museu Inhotim, no Brasil. No exterior, sobre a relva, está “Compressed Time”, uma obra comissionada pelo Museu Rainha Sofia, em Madrid, que acolheu uma ampla exposição da artista no ano passado.

Porquê buscar o ‘fundo do mundo’ no exterior? “Interessa-me como tudo está registado no ‘fundo do mundo’”, ou seja, no fundo do oceano. “Depois eu chego à materialidade, que são todos os materiais orgânicos. Que têm voz e têm memória, que estavam cá antes de nós e que contam histórias e arquivam todos os seres que existiam.” Também a humanidade, aqui representada por “um cubo de vidro muito delicado, que reflete tudo em seu redor… mas que a qualquer momento pode cair e partir. Isso faz-nos questionar a presença humana no mundo. Se não houver equilíbrio, pode quebrar a qualquer momento e deixar de existir.”

Não é o apocalipse. É tão-só – e este ‘tão-só’ é vasto, imenso – questionar o que o ‘fundo do mundo’ nos diria amanhã sobre nós, humanos, se o oceano fosse esvaziado. “A ideia de simular o esvaziamento do oceano, que é como um depósito de memórias, um arquivo da existência humana”, é o que a tem movido nos últimos dois anos de prática artística. “Estamos num momento em que vivemos o inimaginável”. Pausa. A mão eleva-se e desce de novo, como que a ganhar força para dizer certas palavras. Como genocídios e guerras. E a repetição da violência. “Não sei porque repetimos, mas interessa-me muito perceber essa violência cíclica, essa violência histórica e essa repetição que muitas das vezes é apagada ou negada ou invisibilizada.” O papel do artista, frisa Grada Kilomba, “não é repetir a brutalidade do tema, ou a violência do tema. É criar essa reflexão de uma forma poética e bela. A beleza, eu acho, tem um papel muito importante para trabalhar a violência.”

A partilha e o regresso a casa…

Grada tem uma longa linhagem de memórias. Pai português, mãe são tomense com raízes angolanas, avós contadoras de histórias, referências ancestrais que a enriqueceram como pessoa. A Alemanha deu-lhe visibilidade e reconhecimento – em 2024, recebeu a Cátedra Angela Davis na Universidade Goethe –, o Brasil acolheu-a, a ela e ao seu pensamento, enquanto cocuradora da 35.ª Bienal de São Paulo, em 2023, e à sua obra, integrada na coleção permanente do estado brasileiro e exposta em Inhotim. E foi precisamente no Brasil, em São Paulo que esta exposição, a inaugurar a 30 de maio, começou a ganhar forma.

Os astros alinharam-se e uniram o Atlântico, pela mão do curador italiano radicado no Brasil, Jacopo Crivelli Visconti, diretor artístico da Albuquerque Foundation, em Sintra. A vontade de trabalharem juntos já vinha de trás, mas as agendas não confluíam. O ateliê de Grada Kilomba ainda está em Berlim, o seu coração, porém, parece já estar rendido à sua casa de partida. A Serra de Sintra, as suas árvores seculares, a diversidade das populações, comunidades, as zonas urbanas e rurais… De tudo isso nos fala com os olhos a brilhar de emoção. “É um dos concelhos mais jovens do país”, exclama. “Tenho saudades de voltar a certos sítios.”

A conversa irrompe, de novo, em torno do poder da arte e do papel da artista como role model. “Nos anos mais recentes, apercebi-me do poder que a arte tem. E se eu fizer obras em grande escala, mobilizo comigo muitas e grandes pessoas. Uma parte muito importante da minha prática artística tem sido trabalhar com várias comunidades para que haja distribuição de oportunidades, de riqueza. É uma justiça histórica”, refere, lembrando que leva consigo “uma série de pessoas que passam pela produção, pela performance, pela arquitetura, pelo design” das exposições, quando é convidada por grandes museus, como a Pinacoteca de São Paulo.

“Há pessoas que emitiram o passaporte pela primeira vez para viajar para fora do país”, diz. Esta dimensão da partilha mexe com ela. “É um abraço, não é? Eu tenho essa coisa de devolver. E essa responsabilidade de perceber que, com cada obra de arte, com cada produção, eu posso não só transformar as pessoas que vêm ver a exposição, como transformar outras vidas que depois vão transformar outras vidas e outras e outras.” É nesses momentos, confessa, que se sente “a artista mais feliz do mundo.”

… e uma obra que usa a geometria para dizer o indizível

Embelezar o inenarrável? Não. Antes encontrar uma linguagem que permite nomear o inominável. É esta a demanda de Grada Kilomba, cuja obra está representada em coleções como a da Tate Modern, em Londres, o International African American Museum, em Charleston, ou o Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa. Ancorada no storytelling, a artista dá voz a narrativas historicamente silenciadas, interroga quem conta as histórias, onde são contadas e de que forma.

A palavra poderia ser o ponto de partida das suas histórias. Não é. Grada constrói imagens, diz-nos. “Começa tudo com muitas leituras, muita pesquisa e, depois, começam a surgir muitas imagens e muitos desenhos,” conta, sorrindo, antes de partilhar um detalhe que é tudo menos irrelevante, sobre a forma como imagina o seu ‘storyboard’. Poderia ser desenhado, mas é esculpido em barro. Grada molda com as mãos o que será, a posteriori, feito em madeira, em pedra, em vidro. Porquê referir isto? Porque é depois desse estudo, dessa intervenção da mão, que passa “à materialidade real.” E porque é da geometria que parte. “Isso também tem a ver com o facto de trabalhar com questões de violência cíclica e repetição. E quanto mais desumanos e violentos os temas, menos figurativos são. Mais abstratos têm de ser. A geometria é a única linguagem que consegue pôr em palavras aquilo que nós não compreendemos. Ou não conseguimos falar.”

O museu no século XXI tem esse papel, questionamos? Também tem, porque é um espaço que pode ajudar “a educar o público para este compreender a complexidade das obras de uma mulher artista da diáspora.” A escravatura, o colonialismo, o genocídio, ontem e hoje, não podem ser silenciados. Não são temas fáceis? Não. Por isso trabalha com a geometria universal, “porque trabalho com o traumático e o desumano. Onde as palavras falham ou o figurativo falha, a geometria faz-nos refletir sobre a condição humana.” Por isso o museu tem de abrir-se e ser vivido. Grada Kilomba recorda o que aprendeu em Berlim, onde os “museus são dos lugares mais cool e estimulantes da cidade. Onde tudo acontece e é vivido por todas as gerações e comunidades.” Um museu do século XXI é um museu aberto e que “dá de volta ao público”.

“O Fundo do Mundo” inaugura a 30 de maio, entre as 15h e as 18h, na Albuquerque Foundation, Sintra, onde permanece até 26 de setembro. Às 16h00 terá lugar uma performance criada exclusivamente para a abertura da exposição.