Em reação à análise do Banco de Portugal (BdP) que aponta para uma “estabilização das pressões” sobre os preços das casas, a Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) discorda e defende que o caminho para a estabilização ainda é longo. Manuel Maria Gonçalves, CEO da APPII, sublinha a importância da imigração para o setor e alerta que a falta de mão de obra especializada contribui para o aumento dos preços.
O regulador liderado por Álvaro Santos Pereira identificou um défice habitacional de 300 mil casas, um número que o CEO da APPII considera “impressionante” e que “deixou de ser uma narrativa do setor privado para se tornar um objetivo de política pública”. Manuel Maria Gonçalves aponta para um horizonte de quatro a cinco anos para colmatar essa lacuna.
Construção ainda aquém das necessidades
Os dados do BdP revelam que, em 2025, foram concluídos cerca de 26.700 novos fogos, um número muito abaixo dos 67.500 registados em 2007. Apesar de as licenças de construção terem atingido o nível mais elevado desde 2008 (41.900), o CEO da APPII defende que é necessário “construir 60 mil ou mais fogos por ano” para fazer face à procura.
Para isso, Manuel Maria Gonçalves considera essencial acelerar os processos de licenciamento e aposta na construção modular como uma solução para aumentar o ritmo de construção, uma vez que esta permite “um tipo de mão-de-obra que a construção tradicional não tem”.
Falta de habitação social e o papel do Estado
Outro ponto crítico é a falta de habitação social. O CEO da APPII critica o Estado por não ter construído habitação pública nos últimos dez anos, apesar de o setor imobiliário ter pago cerca de 60 mil milhões de euros em impostos. Com um parque habitacional público de apenas 2%, um dos mais baixos da União Europeia, Manuel Maria Gonçalves defende que o Estado falhou e que o setor privado está disponível para colaborar através de parcerias público-privadas, mas não para substituir o papel do Estado.
“Há uma crise habitacional nos países da União Europeia, mas para nós é um agravamento. A nossa crise já é muito anterior”, conclui o CEO da APPII.
Expetaivas dos consumidores para os preços da habitação
De acordo com o mesmo relatório do BdP, entre janeiro e março de 2026, a expetativa é de um aumento dos preços da habitação em 7,0% em Portugal, contra 3,7% na área do euro. As gerações mais velhas (55-70 anos) antecipam uma subida de 6,3%, enquanto os jovens (18-34 anos) esperam um aumento de 4,0%. A nível regional, as expetativas mais elevadas concentram-se no Norte (6,8%) e na Área Metropolitana de Lisboa (6,6%).