O recurso ao factoring, mecanismo que permite às empresas antecipar o recebimento de faturas, reforçando a liquidez, atingiu em 2025 um novo máximo histórico. Somou 51,5 mil milhões de euros, o que representa um crescimento de 12,7% face a 2024. Para Luís Augusto, presidente da Direção da Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting (ALF), este desempenho reflete uma combinação de fatores conjunturais e estruturais, mas confirma uma mudança gradual na forma como as empresas gerem a tesouraria.
“Por um lado, houve a descida das taxas de juro e uma normalização das condições de financiamento, que estimularam a atividade. Por outro, o factoring continua a afirmar-se como um produto essencial de gestão corrente e de melhoria da liquidez”. O crescimento foi impulsionado pelo mercado doméstico, que superou largamente a evolução das exportações — estas cresceram cerca de 0,5%. Ainda assim, o factoring associado à exportação avançou cerca de 5,6%, reforçando o seu peso no apoio à internacionalização das empresas portuguesas.
Além do financiamento, o instrumento inclui serviços de cobrança e seguro de crédito, funcionando como uma alternativa ao crédito bancário tradicional, sobretudo para PMEs. “Quando as empresas se aventuram para geografias menos conhecidas, o factoring torna-se essencial, não só pelo financiamento, mas também pela garantia de pagamento”, sublinha.
O custo divide-se entre o financiamento, dependente do prazo de pagamento das faturas e uma comissão de serviço, geralmente reduzida. Ainda assim, em contextos de maior incerteza, muitas empresas privilegiam esta solução pela previsibilidade e mitigação de risco que oferece.
Também o leasing, modalidade de financiamento em que uma entidade adquire um bem e o cliente paga pela sua utilização ao longo do tempo, podendo comprá-lo no final, registou uma evolução positiva em 2025. O leasing mobiliário cresceu 4%, atingindo 2.242 milhões de euros, refletindo uma retoma do investimento empresarial. “Este tem tido grande dinamismo, nomeadamente em máquinas industriais, equipamentos agrícolas e de elevação, que cresceram cerca de 19%. Isso mostra uma aposta clara na modernização da capacidade produtiva”, refere o responsável. Já o leasing imobiliário manteve-se estável, com um crescimento de 0,7%, totalizando 917 milhões de euros (+0,7%), apesar de segmentos como turismo (+16%) e habitação (+8,1%) evidenciarem maior dinamismo.
Para Luís Augusto, os constrangimentos são sobretudo estruturais. “Existe uma discriminação histórica do leasing face ao crédito à habitação, nomeadamente ao nível fiscal e no acesso a incentivos públicos. Isso limita a competitividade e reduz a escolha dos consumidores”, critica. Apesar disso, defende que o instrumento poderia ter um papel mais relevante no mercado habitacional. “Mais de 90% dos contratos terminam com a aquisição do imóvel pelo cliente, pelo que faz sentido integrá-lo nas políticas públicas de habitação”, defende.
Quanto ao renting — aluguer operacional de longa duração, sobretudo de viaturas, que inclui serviços como manutenção, seguro e assistência -, voltou a destacar-se com 41.078 viaturas contratadas em 2025 (+9,7%) e uma frota total superior a 142 mil veículos. O setor tem sido determinante na transição energética, com mais de 25% das novas viaturas já 100% elétricas — proporção que sobe para 50% incluindo híbridos e híbridos plug-in.
“As empresas estão a passar da posse para a utilização. O renting oferece previsibilidade de custos e transfere o risco, nomeadamente no caso dos veículos elétricos”. Essa transferência de risco, incluindo a desvalorização dos veículos ou a incerteza em torno da durabilidade das baterias, é uma das principais vantagens apontadas pelas empresas. Paralelamente, ganha dimensão o mercado de viaturas usadas provenientes de contratos de renting, O segmento de particulares, ainda com um peso de cerca de 3% representa 6.500 viaturas e é um dos que mais cresce na Europa.
2026: crescimento com cautela
Para 2026, a Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting antecipa uma evolução positiva nos três segmentos, embora num ambiente marcado pela incerteza e pela possível subida das taxas de juro. No conjunto, acreditam que o factoring, leasing e renting refletem uma transformação mais ampla na economia: empresas e, cada vez mais, particulares privilegiam soluções que asseguram liquidez, flexibilidade e gestão de risco, em detrimento da posse tradicional de ativos