
A conversa começa longe dos números e das estratégias de negócio. Para o CEO da Salesforce Portugal, Fernando Braz, a tecnologia é uma presença constante no dia a dia. Fala com entusiasmo da forma como a inteligência artificial está a transformar hábitos e rotinas e admite que a curiosidade o leva a experimentar praticamente todas as novidades na área.
Do ChatGPT ao Perplexity, passando pelo Gemini ou Copilot, o telemóvel é um verdadeiro centro de experiências tecnológicas. “Sou 100% digital”, diz, entre exemplos que vão da produtividade à gestão da própria casa, como o controlo da luz e da temperatura ambiente. O gestor descreve um mundo onde humanos e humanoides coexistem naturalmente, lado a lado, partilhando tarefas, decisões e espaços. A certa altura, a conversa faz uma curva inesperada para o cinema. “Lembra-se do filme Minority Report?”, pergunta. E, durante o resto do almoço, no restaurante O Nobre, em Lisboa, a sensação é exatamente essa: a de estar sentado alguns anos à frente do presente.
Para Fernando Braz, estamos perante um momento histórico. “Cada empresa pode contar com agentes de IA, uma nova classe de trabalho digital que atua lado a lado com os humanos, executando tarefas, processos e decisões em tempo real.” Para ilustrar a rapidez desta evolução tecnológica, recorre à própria experiência geracional. Recorda que, há apenas três décadas, o panorama era radicalmente diferente.
“Sou da geração do Spectrum e, em 30 anos, chegámos aqui”, diz, evocando o computador que marcou uma geração para demonstrar a velocidade com que a inovação transformou a sociedade. Se em poucas décadas foi possível passar de computadores domésticos rudimentares para sistemas de inteligência artificial capazes de aprender, comunicar e executar tarefas complexas, acredita que a integração de robôs humanoides no dia a dia poderá acontecer mais depressa do que hoje se imagina. “Vamos conviver lado a lado com humanoides”, diz.
Apesar do entusiasmo com a evolução tecnológica, sublinha que este caminho terá de ser acompanhado por regulamentação. O receio de destruição de postos de trabalho é inevitável, admite, mas considera que o debate tende a focar-se demasiado nos riscos e pouco nas oportunidades. Um dos exemplos que destaca é o apoio à população envelhecida.
Num contexto de falta de profissionais na área dos cuidados, acredita que os humanoides poderão desempenhar tarefas fisicamente exigentes, como ajudar pessoas com mobilidade reduzida, acompanhar idosos ou prestar apoio em lares e domicílios. “Porque é que olhamos sempre para a parte negativa?”, questiona, defendendo que as máquinas poderão assumir funções repetitivas e de desgaste físico, libertando as pessoas para tarefas que exigem maior proximidade humana.
Ao olhar para o panorama internacional, considera que a corrida pela inteligência artificial será disputada principalmente entre os Estados Unidos e a China, enquanto a Europa continua mais cautelosa. O conservadorismo europeu pode atrasar a inovação face às duas grandes potências, embora reconheça que encontrar um equilíbrio entre desenvolvimento tecnológico e proteção dos cidadãos será um dos grandes desafios dos próximos anos.
Mas se há um desafio que acompanha toda esta evolução, esse é a cibersegurança. Para o CEO da Salesforce Portugal, quanto mais digital se torna o mundo, maiores são também as oportunidades para ataques e vulnerabilidades. Ainda assim, faz questão de desmistificar uma ideia comum: “As maiores fragilidades não estão nas máquinas, mas nos seres humanos.” Na maioria dos casos, explica, os incidentes resultam de falhas humanas — desde descuidos no cumprimento de boas práticas até acessos que permanecem indevidamente abertos — e não propriamente de limitações tecnológicas.
Principais referências
Quando desafiado a identificar as figuras da tecnologia que mais admira, Fernando Braz recusa escolher apenas um nome. Prefere falar de um conjunto de líderes que, na sua perspetiva, moldaram a indústria e aceleraram a transformação digital das últimas décadas. Ainda assim, há um que destaca de forma particular: Steve Jobs. Mais do que ter fundado a Apple, admira-lhe a resiliência. “Não desistiu”, resume, recordando o percurso marcado por momentos de queda e de regresso ao topo. Entre as restantes referências surgem Mark Benioff, fundador da Salesforce, Bill Gates, Larry Ellison e os fundadores da Google, Larry Page e Sergey Brin. Em comum, diz, todos tiveram “a capacidade de criar empresas que mudaram a forma como pessoas e organizações utilizam a tecnologia”. “Costumo dizer que vivemos num mercado global onde é necessário ‘cooperar e competir’. No mundo virtual, podemos estar a concorrer uns com os outros em determinados momentos, mas, noutros, devemos colaborar para criar valor em conjunto”, acrescenta.
Licenciado em Gestão, Fernando Braz é um apaixonado pelas tecnologias e por impulsionar as empresas e a sociedade através das tendências digitais e de inovação como a cloud, aplicações de negócios de CRM, inteligência artificial e analytics. Tendo passado no início da sua carreira por empresas como o Grupo José de Mello ou o Banco Millennium BCP, esteve mais de 11 anos na Oracle, onde passou por diferentes departamentos e funções. Desde maio de 2020 que lidera a Salesforce em Portugal, enquanto country leader.
A empresa, com mais de 29 mil clientes de Agentforce a nível global, lidera a implementação de agentes de IA, e destaca a importância de existir uma estratégia que permita escalar projetos de IA de forma eficaz. De acordo com um estudo do MIT, 95% dos projetos piloto de IA não chegam à fase de produção, devido ao facto de os modelos de linguagem de grande escala (LLMs) não serem, por si só, suficientes para um ambiente de produtividade empresarial. “Os grandes modelos de linguagem carecem de conhecimento específico do negócio, não são deterministas, apresentam problemas de transparência e podem gerar alucinações totalmente inaceitáveis para as empresas”, continua Fernando Braz.
“Para ultrapassar a fase dos ‘pilotos’ e escalar a nível corporativo com a implementação de agentes, é necessário complementar os modelos com um sistema que lhes dê contexto, através dos dados da empresa, um sistema de trabalho, as aplicações onde os processos de negócio são suportados, um sistema próprio de agentes de IA para gerir todo o seu ciclo de vida e um sistema de engagement que ligue agentes, clientes e colaboradores”, explica.
Refletindo sobre o percurso de inovação da Salesforce, o gestor destaca a importância da adoção precoce da cloud e da gestão estratégica dos dados. “Fomos a empresa a nível corporativo mais inovadora quando aderimos à cloud. Se formos ver em 1999/2000, quando a empresa foi criada, quantos de nós é que tínhamos coragem de colocar os dados na cloud? Eu aposto que 99% não colocaria”.
O CEO afirmou que, se pudesse delegar uma tarefa diária a um agente de inteligência artificial, escolheria as reuniões pouco produtivas. Na sua perspetiva, “são repetitivas e consomem tempo que poderia ser dedicado a atividades de maior valor acrescentado”. A propósito deste tema, recordou-se também uma prática associada a Steve Jobs, que realizava reuniões em pé para incentivar sessões mais curtas, objetivas e eficientes.
Fernando Braz refletiu ainda sobre o impacto do Covid-19 na transformação digital. Na sua opinião, a pandemia acelerou significativamente a adoção das ferramentas digitais e das videoconferências, criando oportunidades de negócio para muitas empresas. Contudo, considera que esta evolução também contribuiu para uma diminuição do trabalho em equipa e da colaboração presencial. “É um erro absoluto abandonar o escritório”, sublinha.
Questionado sobre a utilização da tecnologia pelos filhos, o gestor explicou que, embora a sua mulher acompanhe mais de perto essa dimensão, ambos adotam uma abordagem bastante liberal, baseada na responsabilidade e na educação, em vez de um controlo rigoroso. Segundo o CEO da Salesforce Portugal, os três filhos sempre tiveram acesso a telemóveis, iPads, computadores e outras tecnologias, acreditando que uma utilização equilibrada desde cedo contribui para uma relação saudável com esses equipamentos. “O meu filho mais velho cresceu rodeado de consolas, desde a primeira PlayStation, mas nunca desenvolveu um comportamento de dependência. Pelo contrário, utiliza-a apenas quando lhe faz sentido. O mesmo se passou com as minhas filhas mais novas”.
Ainda assim, fez uma distinção importante entre o acesso à tecnologia em geral e a utilização das redes sociais. Na sua opinião, está cada vez mais demonstrado, principalmente através de estudos e do debate que tem ocorrido nos Estados Unidos, que as redes sociais possuem mecanismos para criar dependência. Por essa razão, considera que o principal risco não está na tecnologia em si, mas na natureza aditiva de algumas plataformas digitais. “Os radicalismos e as proibições não funcionam. O objetivo é tentar explicar-lhes o que de maléfico estas coisas têm”.