
Pela primeira vez em 11 anos, Portugal inverteu o défice de construção de novas casas face ao crescimento das famílias. Os dados constam do Boletim Económico de junho do Banco de Portugal (BdP) e mudam de forma significativa o enquadramento do debate sobre habitação no país. Não é um pormenor estatístico, nem uma boa notícia de circunstância. É um marco estrutural que importa conhecer, compreender e valorizar devidamente.
Durante a última década, Portugal não construiu casas suficientes para acompanhar o crescimento da população. O resultado está à vista: preços que mais do que duplicaram, rendas que dispararam ao mesmo nível e famílias cada vez mais a braços com a falta de acessibilidade à habitação. O défice acumulado ao longo desses anos ascende a cerca de 300 mil fogos, um número que, nas palavras do governador do BdP, Álvaro Santos Pereira, equivale a praticamente todo o parque habitacional do município de Lisboa e a mais do dobro do município do Porto. Dizer isto é dizer muito sobre a profundidade do problema herdado, que era preciso enfrentar com determinação e sem hesitações. A questão da habitação em Portugal não nasceu ontem, mas durante demasiado tempo faltou a coragem política de atuar sobre as suas causas reais e estruturais.
Em 2025, essa dinâmica inverteu. Duas forças convergiram em simultâneo: a imigração líquida abrandou de forma significativa, de cerca de 13.200 indivíduos por mês em 2024 para 6.200 no ano passado, e a oferta de novas habitações acelerou de forma expressiva, com 26.700 fogos concluídos e 41.900 licenciados, o nível mais elevado desde 2008. O BdP estima que o hiato entre a dinâmica demográfica e a oferta de nova habitação terá sido anulado e que as pressões sobre os preços tenderão a ser mitigadas no futuro próximo. São perspetivas que animam, mas que não dispensam cautela nem complacência.
Este resultado não surge do acaso, reflete o trabalho determinado e consistente do Ministro Miguel Pinto Luz, que desde o início colocou o aumento da oferta no centro das políticas de habitação. A sua aposta numa visão estrutural, assente na construção, no licenciamento e na mobilização de terrenos para habitação acessível, começa agora a produzir frutos mensuráveis e concretos para as famílias portuguesas. É um reconhecimento que importa fazer com clareza e sem ambiguidades.
Ainda assim, seria um erro ler estes números com triunfalismo. O défice acumulado de uma década não se apaga num único ano e o seu peso continua a fazer-se sentir nos preços elevados e nas dificuldades reais de milhares de famílias. O compromisso tem de ser continuar a trabalhar, com determinação e sem ilusões, para que cada português tenha acesso a uma casa a um preço justo. A viragem aconteceu. Agora é preciso consolidá-la.