O bailarino João Penalva ganhou asas até à pintura e deixou-se desassossegar por outras linguagens artísticas. Desde o vídeo, instalação, fotografia e música à performance, nunca deixou de explorar e de cruzar texto, imagem e linguagem. Um percurso nada linear, certo, mas nunca impeditivo dessa insaciedade exploratória. Ele que iniciou o seu percurso artístico no ballet e na dança contemporânea, integrando as companhias de Pina Bausch e Gerhard Bohner como bailarino, deixou-se seduzir pelas artes visuais. Mas já lá vamos, à trajetória singular de João Penalva.
O artista nascido em Lisboa e que passou a maior parte da sua vida em Londres, foi distinguido pelo Grande Prémio Fundação EDP Arte pelo seu “percurso singular e não linear, ancorado num profundo trabalho de investigação e experimentação com materiais e linguagens diversas, os vários projetos ambiciosos que desenvolveu, e a consistência na qualidade da sua obra”, como salienta o júri internacional em comunicado.
A escolha foi unânime e justificada com “o virtuosismo e a complexidade do seu trabalho, revelados na exploração de caminhos e narrativas através da escrita, pintura, desenho, instalação, fotografia e vídeo, numa indistinção permanente entre o real e a ficção”, acrescentam os membros do júri, sublinhando “a importância histórica do artista, ainda relativamente pouco conhecido junto do grande público”.
O júri desta edição foi presidido por Vera Pinto Pereira, Presidente da Fundação EDP e constituído por Andrew Renton (Escritor, Curador e Professor na Goldsmiths, University of London), François Quintin (Curador e Diretor da Collection Lambert), Luisa Cunha (artista e vencedora do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2021), Luiz Camillo Osorio (Curador e Professor de Filosofia da PUC-Rio), João Pinharanda (Curador e Diretor Artístico do MAAT) e Miguel Coutinho (Administrador e Diretor-geral da Fundação EDP).
João Penalva adota Londres como sua casa, em 1976, e ingressa no Chelsea College of Arts. A pesquisa passa a ter uma pegada extremamente relevante no seu trabalho como artista visual, entretecendo relações entre fontes diversas como a literatura, objetos encontrados e materiais de arquivo. A pintura teve um papel de relevo no seu processo criativo até aos anos 90. quando enveredou por um nível de experimentação mais diversificado e complexo, usando o vídeo, a instalação, a fotografia, a música e a performance, e correlacionando imagem, texto e linguagem.
Regressou a Lisboa em 2021 e continua a lecionar na Academia de Arte de Malmö da Universidade de Lund, Suécia, como professor externo – cargo que ocupa desde 2002. Representou Portugal nas Bienais de São Paulo (1996) e Veneza (2001). A sua obra tem sido exposta maioritariamente na Europa, em cidades como Londres, Innsbruck, Glasgow, Malmö, Vilnius, Budapeste, Berlim, Paris e Munique, mas também nos EUA, Canadá e Austrália.
João Penalva está representado na Coleção de Arte Fundação EDP e obras suas integraram exposições coletivas com a chancela da Fundação EDP e do MAAT, entre as quais T.D. Transmissão Direta da Torre do Relógio da Câmara Municipal do Porto (2015) e Quote Unquote –Entre Apropriação e Diálogo (2017).
Esta distinção coincide com duas exposições em curso, em Lisboa. Personagens e Intérpretes, com curadoria de Bruno Marchand, revisita uma das vertentes mais singulares da obra de João Penalva. Em meados dos anos 1990, após um longo período dedicado à pintura, o artista adotou a grande escala e passou a criar obras que entrelaçam a fotografia e o vídeo, o desenho e anotações manuscritas. A mostra ocupa todo o espaço expositivo da Culturgest e resulta de uma colaboração com as Galerias Municipais, que conta, também, com a reposição da seminal A Coleção Ormsson no Pavilhão Branco, onde foi originalmente apresentada.