“A Gulbenkian teve quase sempre, com vários presidentes, a capacidade de escolher muito bem o que fazer, isto é, de fazer o que faz falta, ou de fazer melhor do que outros faziam”, avaliou António Barreto, em entrevista à agência Lusa, a propósito dos 70 anos da constituição da Gulbenkian no país.

O investigador considerou que essa orientação estratégica foi “muito bem conseguida”, ao evitar dispersão e sobreposição de funções, e que a instituição construiu a sua relevância precisamente por “não tentar fazer tudo”.

A Gulbenkian “optou, em vez disso, por intervir em áreas onde Portugal apresentava maiores fragilidades”, num modelo que descreveu como “eficaz ao longo de várias décadas”, a partir de 1950.

Essa atuação, acrescentou António Barreto, “obrigou a fundação a adaptar-se às transformações da sociedade portuguesa”, nomeadamente ao reforço do papel do Estado, das autarquias e do setor privado no financiamento cultural.

“Hoje o investimento na cultura, nas artes, na música, no teatro não se justifica da mesma forma”, disse, sublinhando, contudo, que a Gulbenkian “continua a ter nalguns setores uma importância relevante”, disse, destacando o museu e a orquestra da entidade.

António Barreto, que coordenou e foi um dos principais autores da obra “Fundação Calouste Gulbenkian: Cinquenta Anos (1956-2006)”, lançada para celebrar o cinquentenário da instituição, foi responsável pela criação da Pordata – base de dados estatísticos sobre o Portugal contemporâneo -, lançada em 2010, sob a sua presidência na Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O investigador recordou que, ao longo das décadas de existência, a fundação criou e extinguiu organismos de investigação em áreas como economia agrária e ciências sociais, acompanhando a evolução das necessidades do país, ao mesmo tempo que surgiram outras estruturas, como o Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM), focado nas ciências da vida e da saúde, resultado de uma fusão inovadora entre o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC).

Por outro lado, Barreto salientou a capacidade da fundação de integrar contributos externos no seu processo de decisão: “A Gulbenkian recorre muito a pessoas do exterior para ajudar a planear e a pensar”, apontou, referindo o envolvimento de economistas, juristas, artistas, cientistas e outros especialistas, conferindo-lhe “uma capacidade de decisão excecional, evitando uma lógica autocentrada”.

Após o 25 de Abril de 1974, essa abertura traduziu-se também na organização de conferências internacionais, nomeadamente nas áreas da economia e da integração europeia, que tiveram “muita importância” no debate público em Portugal, recordou.

Apesar do reconhecimento geral do seu papel no país, o percurso da Gulbenkian não esteve isento de controvérsia. Um dos episódios mais marcantes foi a extinção do Ballet Gulbenkian, em 2005, uma decisão que gerou forte contestação no meio artístico, justificado, na altura, pela administração, com a necessidade de adaptar o apoio à dança a novas realidades, substituindo a companhia permanente por bolsas e subsídios a projetos independentes.

A polémica acabou por atenuar-se com o tempo, apontou o sociólogo, “em parte devido a medidas compensatórias”, como a criação, em 2022, do Prémio Salavisa, destinado a apoiar criadores dessa área, e à valorização do legado da companhia, nomeadamente através do documentário “Um Corpo que Dança – Ballet Gulbenkian 1965-2005”, de Marco Martins.

Também nos museus houve tensões internas, nomeadamente durante a direção da historiadora de arte britânica Penelope Curtis (2015-2020), que, depois de ter saído, criticou a administração por “tomar decisões sem consultar a equipa do museu”, num período marcado pela reorganização das coleções.

Outra frente de crítica veio de setores ambientalistas, que apontaram uma contradição entre os fins filantrópicos da fundação e a origem da sua fortuna, ligada ao petróleo, através da petrolífera Partex. Em 2017, um grupo de ativistas apelou ao abandono dos investimentos em energias fósseis, o que viria a concretizar-se dois anos depois, com a venda da empresa e o anúncio de uma reorientação estratégica para a sustentabilidade.

Em 2019, a instituição criou o Prémio Gulbenkian para a Humanidade, no valor de um milhão de euros, dedicado a distinguir contributos na área ambiental, e a primeira galardoada foi a jovem ativista Greta Thunberg, pelo seu papel na mobilização das gerações mais jovens para a causa.

António Barreto reconhece que decisões mais recentes, como a construção do novo Centro de Arte Moderna, também suscitaram reservas: “Houve decisões difíceis, como a construção do novo CAM, que eu pessoalmente não gosto, e pela forma como se perdeu um bocado o jardim”, afirmou, considerando, no entanto, que a fundação tem adotado um estilo de “suavizar os problemas”, o que tem contribuído para a sua estabilidade.

Entre as discussões mais persistentes, recordou a definição da identidade da instituição: “Há uma velha polémica interna de saber se a Gulbenkian deve ser um organismo português que trabalha com o resto do mundo, ou um organismo mundial que está em Portugal”, disse, lembrando que este debate remonta à própria fundação e à escolha do primeiro presidente, Azeredo Perdigão.

Segundo o sociólogo, acabou por prevalecer a ideia de que a Gulbenkian deve concentrar a sua ação prioritariamente em Portugal, mantendo, no entanto, uma dimensão internacional, sobretudo nas áreas da ciência e da cultura. “Considero que é uma fundação portuguesa e deve servir prioritariamente Portugal”, defendeu, na entrevista à Lusa.

“É neste equilíbrio entre capacidade de resposta às necessidades do país e adaptação às mudanças, mesmo quando atravessada por polémicas, que reside a singularidade da Fundação Gulbenkian no panorama português”, concluiu o investigador.