O surto de hantavírus associado a um cruzeiro de luxo bastou para desencadear um fenómeno já demasiado familiar: teorias de conspiração, previsões apocalípticas, suspeitas sobre vacinas, ataques às autoridades sanitárias e uma nova vaga de desinformação viral nas redes sociais.

Primeiro surge o medo. Depois a amplificação mediática. A seguir aparecem os “especialistas” de TikTok, os profetas do colapso global, os vídeos sobre laboratórios secretos, os algoritmos a recompensarem indignação e ansiedade. Finalmente, regressa o sentimento mais profundo deixado pela pandemia: a desconfiança estrutural.

Há algo ainda mais profundo neste fenómeno: as sociedades desenvolvem memória traumática coletiva. Tal como um indivíduo que, depois de um acidente, reage de forma exagerada a qualquer estímulo semelhante, também comunidades inteiras passam a interpretar novos acontecimentos através da cicatriz emocional deixada por eventos passados. O Covid não alterou apenas sistemas de saúde ou modelos económicos; alterou a arquitetura psicológica das sociedades contemporâneas.

O cérebro coletivo já não distingue facilmente entre ameaça potencial e trauma recordado. Reage primeiro. Analisa depois. E nesse espaço entre emoção e racionalidade nasce precisamente o ambiente ideal para pânico, radicalização e desinformação. O cérebro coletivo ficou ancorado em 2020.

O mais interessante é que o hantavírus não é novo. Nem misterioso. Nem sequer remotamente comparável ao SARS-CoV-2. Mas psicologicamente, a sociedade já não reage a vírus reais. Reage à memória emocional do Covid. Existe um conceito na psicologia comportamental chamado recency bias: a tendência para sobrevalorizar eventos recentes quando avaliamos risco e probabilidade. Não estamos verdadeiramente a analisar o hantavírus. Estamos a reviver o covid.

Outro viés relevante é a chamada availability heuristic. O cérebro humano mede o risco não pela estatística real, mas pela facilidade com que consegue recordar exemplos semelhantes. Como as pandemias dominaram o espaço mediático durante anos, o nosso sistema cognitivo sobrestima imediatamente a probabilidade de um novo desastre global.

Um caso isolado num cruzeiro deixa de ser um incidente sanitário localizado. Passa a ser percecionado como o início de “algo maior”. Não porque os dados o sugiram. Mas porque a memória coletiva foi programada para reconhecer padrões de catástrofe. É precisamente aqui que a desinformação prospera.

O confirmation bias faz o resto. Cada grupo utiliza o evento para validar crenças que já existiam antes do surto: os anti-vacinas veem encobrimento; os anti-indústria veem interesses económicos; os conspiracionistas veem manipulação; os eternos profetas do colapso veem finalmente confirmação.

O surto não criou novas crenças. Apenas ofereceu nova munição emocional para crenças antigas. E talvez o sinal mais preocupante seja este: uma parte crescente da população já não procura informação. Procura validação psicológica.

As redes sociais agravaram radicalmente este fenómeno. O algoritmo não recompensa precisão. Recompensa intensidade emocional. O medo circula mais depressa do que nuance. A suspeita gera mais engagement do que prudência. A indignação tem melhor performance do que contexto. Na era digital, memória e feed começaram a fundir-se.

E isso produz um fenómeno particularmente perigoso: o misinformation effect. As pessoas passam a recordar coisas que nunca aconteceram. Juram ter “visto especialistas” dizer algo que nunca foi dito. Confundem comentários com evidência. Reconstroem memórias a partir de fragmentos algorítmicos. A verdade deixa de competir com a mentira. Passa apenas a competir pela atenção.

O mais irónico é que muitos dos que hoje dizem “eu sabia que isto ia acontecer outra vez” estão apenas a demonstrar outro viés clássico: hindsight bias. Depois dos acontecimentos, tudo parece previsível. Todos acreditam ter antecipado aquilo que nunca realmente anteciparam.

Mas o verdadeiro tema não é o hantavírus. O verdadeiro tema é a erosão da confiança coletiva. A próxima pandemia – quando vier – encontrará sociedades muito diferentes das de 2020: mais polarizadas, mais cansadas, mais desconfiadas, mais tribalizadas, mais dependentes de algoritmos emocionais. E isso representa um risco económico, político e civilizacional muito maior do que muitos vírus.

Mercados dependem de confiança. Sistemas de saúde dependem de confiança. Vacinação depende de confiança. Governos dependem de confiança. Até cadeias logísticas globais dependem de confiança. Sem ela, qualquer crise se transforma rapidamente numa crise de legitimidade.

Talvez o surto de hantavírus não tenha importância epidemiológica histórica. Mas tem enorme importância psicológica. Porque revelou algo desconfortável: a infraestrutura mental do pós-Covid continua profundamente fragilizada. A ciência pode estar melhor preparada para a próxima pandemia. Não tenho a certeza de que as sociedades estejam preparadas.