A menos de dois meses do início do Mundial de futebol, que terá os EUA como um dos anfitriões (juntamente com o México e Canadá), o cenário não é o mais favorável para os setores que procuram obter receitas extraordinárias com a prova desportiva mais atrativa do planeta. A hotelaria norte-americana, sobretudo nas cidades que vão receber partidas do Mundial de futebol, tinha a expectativa de que o verão pudesse ser muito rentável mas responsáveis desta indústria estão a apontar vários fatores para que os adeptos estejam simplesmente a desistir de rumar aos EUA para ver a sua seleção: os preços proibitivos dos bilhetes do Mundial, os receios de um escalar da taxa de inflação e o sentimento anti-americano já eram fatores de risco e reforçaram esse estatuto nos últimos meses.

Tarifas descem um terço

Atlanta, Dallas, Miami, Filadélfia e São Francisco: o que têm estas cidades norte-americanas em comum? Todas vão receber jogos do Mundial e em todas, as unidades hoteleiras foram obrigadas a cortar as tarifas dos quartos em um terço no início deste ano, de acordo com a plataforma Lighthouse Intelligence, num claro sinal que antecipa uma fraca procura por quartos quando as cidades estiverem prontas para receber os adeptos. Até há responsáveis por cadeias hoteleiras destas cidades a referir que alguns empresários da hotelaria “entraram em pânico” e desceram de forma expressiva as tarifas para o mês de junho. Muitos protagonistas desta indústria esperavam que 2026 pudesse ser o ano da recuperação do setor, após 2025 ter sido um período de perdas para os empresários. O ano passado, a receita por quarto desceu pela primeira vez desde a pandemia e este ano não deverá marcar uma reviravolta nessa tendência. Por esta altura, muitos dos donos de hotéis nestas cidades norte-americanas recordam as palavras de Gianni Infantino, responsável máximo da FIFA: “Preparem-se para receber centenas de milhares de adeptos e não apenas os felizardos que tiverem bilhetes para jogos. Muitos, muitos virão para… fazerem parte de algo muito especial”. Meses depois, e numa altura em que os pedidos de reservas já deviam ter chegado, o presidente da Associação de Hotelaria de Nova Iorque lamenta que os seus associados ainda não tenham visto essas reservas em massa dos adeptos e que “talvez ainda seja possível verificar alguma procura mas com o cenário que antecipamos, em junho não teremos a exuberância que a FIFA prometeu”. E se as perspetivas já eram pouco otimistas, foi a própria FIFA a agravá-lo. Como? Como o cancelamento de milhares de reservas de quartos de hotel contratados para equipas do organismo. Se é verdade que se esperavam alguns cancelamentos, fruto de reservas excessivas, a verdade é que esses cancelamentos acabaram por exceder as expectativas dos empresários e deixaram “muito mais quartos para vender no período entre os jogos”, destacou uma analista da empresa de dados CoStar, especializada em hotelaria.

O factor Trump

Quando se traçam perspectivas de impacto económico de uma prova como o Mundial de futebol, quem traça estes cenários tem sempre em conta o impacto de um evento desta magnitude não só nas cidades que recebem os jogos mas também nas regiões vizinhas que acabam sempre por lucrar no período de intervalo das partidas, em que os adeptos optam por incursões turísticas. Segundo alguns responsáveis, as reservas obtidas até ao momento não permitem antecipar um cenários de receitas extraordinárias para o turismo destas regiões. Um dos responsáveis hoteleiros ouvidos pelo “Financial Times” não tem dúvidas em apontar o dedo à administração Trump e às suas políticas de restrição à imigração e respetivo policiamento mas também à enorme instabilidade com que a Casa Branca tem gerido a guerra no Irão. Estes são fatores que arrefeceram, e de que maneira, a procura internacional num momento em que os EUA deveriam estar a atrair turistas: “Obviamente, isto fez com que o desejo dos turistas em visitar os EUA tivesse arrefecido”. Outro responsável, especializado em estudos relacionados com o peso económico de fluxos turísticos, sublinha que ainda pode haver um incremento na procura mas que há uma óbvia preocupação com o preço dos bilhetes, com as fronteiras e com um sentimento anti-americano… e que tudo isto piorou com o espoletar da guerra no Irão. Em pleno ano de Mundial, estudos recentes apontam para uma revisão em baixa na expectativa de acolhimento de visitantes internacionais: para 2026, a estimativa em dezembro do ano passado era para um crescimento de 3,9%, uma percentagem que caiu para 3,4% segundo os últimos números divulgados. A presidente da Associação American Hotel & Lodging realçou que os mais de dois milhões de bilhetes do Mundial vendidos até agora “não tiveram repercussão no nível de reservas hoteleiras que tipicamente estão associadas a eventos com esta escala”.