A recente encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, e as reflexões do filósofo Edgar Morin, falecido dias depois da publicação, convergem em um ponto crucial: os riscos da simplificação excessiva proporcionada pela inteligência artificial (IA). Ambos alertam para a perda da capacidade humana de julgamento crítico e criatividade diante da delegação de tarefas a sistemas automatizados.

Leão XIV critica a equiparação da IA à inteligência humana, destacando que, embora supere o ser humano em cálculo e velocidade, a IA não possui consciência moral, emoções ou capacidade de amar e sofrer. Já Morin via a IA como uma criação humana que confirma nossa tendência a ser instrumentalizados por nossos próprios instrumentos, gerando dependência e alienação.

Dignidade laboral e políticas públicas

O Papa pede cooperação internacional para proteger o emprego e evitar a desumanização do mercado de trabalho, mas sem rejeitar o progresso tecnológico. A ideia central é que o desenvolvimento da IA deve estar a serviço da dignidade humana e do bem comum.

Estudos indicam que a IA tende a transformar empregos, não a eliminá-los em massa, mas os riscos de concentração de poder e deterioração do valor do trabalho são reais. Para mitigá-los, políticas públicas devem focar em:

  • Apoio social às transições profissionais
  • Reforço das competências digitais dos trabalhadores
  • Expansão da conectividade e democratização do conhecimento tecnológico
  • Regulação equilibrada, que não trave a inovação nem prejudique pequenas empresas

Diálogo social e transição justa

O fortalecimento do diálogo social entre decisores políticos, empregadores e representantes dos trabalhadores é essencial para antecipar desafios, definir regras éticas e garantir que os ganhos de produtividade da IA sejam acompanhados de proteção laboral e qualidade de emprego. O Papa defende que a tecnologia alivie o homem de trabalhos pesados ou repetitivos, oferecendo suporte inteligente.

A abordagem à IA não deve ser conduzida pelo medo, mas pelo pragmatismo e pela prontidão na resposta. Se assim for, as alterações estruturais no mundo do trabalho não significarão o “apocalipse dos trabalhadores”, mas sim uma redefinição de funções e competências rumo a um trabalho mais digno.