O JP Morgan, o maior banco norte-americano, e o seu CEO, Jamie Dimon, têm perspetivas divergentes relativamente à evolução dos mercados de capitais. A organização está otimista, o seu líder nem tanto. Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
O banco assume uma postura mais otimista, ou seja, tem uma perspetiva bullish. Os seus analistas, a 27 de julho, defenderam, transcritos pela agência noticiosa Bloomberg, que um indicador interno estava a emitir “um sinal de compra”, ou seja, consideravam indícios de que o índice bolsista norte-americano S&P 500 estava numa trajetória de subida.
A equipa de analistas do banco, liderada por Andrew Tyler, referiu que os dados indicam “uma alta significativa” para o S&P 500, embora também alerte para riscos em carteiras concentradas em ações de semicondutores, e para as perspetivas relativas à guerra no Médio Oriente, entre Estados Unidos e Irão.
Mas mesmo considerando estes riscos, o JP Morgan está “taticamente otimista” relativamente às ações norte-americanas, e considera que o mercado vai beneficiar com “menores rendimentos gerados por obrigações, um dólar mais fraco, e também por fortes resultados” das empresas.
Andrew Tyler diz que estes “fatores favoráveis” são impulsionados por uma “diminuição das hostilidades no Médio Oriente e pela manutenção da taxa de juro diretora” por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed), isto numa altura em que a Fed ainda não tinha tomado a decisão de manter as taxas de juro inalteradas, algo que aconteceu a 29 de julho, dois dias depois da nota dos analistas do JP Morgan.
O banco considerou também que existe alguma pressão no mercado, por parte das tecnológicas, porque o aumento dos gastos com despesas de investimento (capex) “já não é garantia de sucesso” para os fabricantes de semicondutores e outras empresas que fornecem a infraestrutura. Mas, por outro lado, o JP Morgan refere também que o consumo das famílias está a apontar para uma “economia forte”, dando como exemplo a subida no património líquido das famílias e dos saldos das balanças correntes, as “fortes” vendas a retalho e “poucos sinais” de stress de crédito.
O que é facto é que a bolsa tem subido, depois das vendas maciças de títulos de tecnológicas. Esta terça-feira, 4 de agosto, tanto o Dow Jones como o S&P 500 atingiram valores recorde durante as negociações. O S&P 500 tocou nos 7.758,21 pontos e o Dow Jones alcançou um máximo de 54.272,60 pontos.
Ao contrário da organização que lidera, Jamie Dimon assume uma postura de maior cautela, ou seja, uma postura mais bearish, mais negativa.
A 20 de julho, o CEO do JP Morgan, em entrevista à CNBC, considerou que os riscos que os mercados enfrentam “são provavelmente maiores” do que as pessoas imaginam, dando como exemplo as guerras entre a Rússia e a Ucrânia e a que ocorre no Médio Oriente. Acrescenta-lhe as tensões entre Estados Unidos e China, e o aumento das despesas militares.
Na entrevista, considerou que é difícil saber quanto destes riscos já estão precificados nos preços das ações. “É possível que algo já esteja precificado, mas o que não está precificado é o que realmente vai acontecer”, avisou.
Dimon disse, também, que não compraria títulos de longo prazo do tesouro norte-americanos e que não compraria ações devido às avaliações atuais.
Ainda abordou a inteligência artificial (IA). “O montante investido é enorme. Será que o investimento valerá a pena? Provavelmente, tal como aconteceu com a internet”, disse o CEO do JP Morgan, na entrevista.
São visões divergentes. O banco aponta para a compra de títulos, mas o seu CEO garante que não o fará. São Dr. Jekyll e Mr. Hyde, como no livro de Robert Louis Stevenson, que procura retratar a divisão moral do ser humano, com o médico respeitável, racional e socialmente integrado Henry Jekyll a opor-se à manifestação dos seus próprios impulsos de violência, egoísmo e a ausência de remorso, concretizados por Edward Hyde.
Como no estranho caso de Stevenson, no JP Morgan subsistem as vertentes. Qual é qual?