Lisboa continua a ser o distrito onde se contratam mais créditos à habitação em Portugal, mas a sua vantagem encolheu de forma abrupta. Segundo a análise de mercado de crédito habitação do ComparaJá, a capital representou 35,7% das operações em junho, depois de ter estado acima de metade do total no mês anterior. É uma queda de quase 17 pontos percentuais em 30 dias e de 9,2 pontos face aos 44,9% registados um ano antes.

O movimento não é de retração, é de redistribuição. O Porto subiu para 18,8% das operações e Setúbal para 11,6%, com Braga e Leiria a fecharem os cinco primeiros lugares com 6,3% cada. Nenhum destes distritos ganhou peso por si só: ganharam-no porque a procura deixou de estar concentrada num único mercado. É uma alteração de composição geográfica da procura de crédito, não uma quebra de volume.

A explicação mais plausível está nos valores por operação. Lisboa mantém a prestação média mais alta do país, com 880 euros, e o montante médio financiado mais elevado, com 230.250 euros. O Porto apresenta 635 euros de prestação e 180.689 euros de montante, Setúbal 529 euros e 159.510 euros, e Leiria 467 euros e 149.285 euros. A distância entre Lisboa e Leiria é de 413 euros na prestação mensal, quase o valor de uma prestação inteira, para a mesma finalidade e o mesmo tipo de produto.

Quando a prestação máxima permitida se torna mais restritiva, e o limite da taxa de esforço desce de 50% para 45% no início de agosto, a decisão sobre onde comprar deixa de ser apenas uma preferência de vida e passa a ser uma condição de acesso. Um agregado que não consiga acomodar 880 euros de prestação dentro do novo limite pode conseguir acomodar 529 euros, e a diferença entre uma coisa e outra é geográfica antes de ser financeira. A desconcentração observada em junho é consistente com esse ajustamento.

Segundo Rita Sogalho, Team Leader de Crédito Habitação do ComparaJá, a mudança de distrito aparece cada vez mais cedo no processo. “Há alguns anos, o cliente chegava com o imóvel escolhido e queríamos saber se o crédito cabia. Hoje é frequente acontecer o inverso: primeiro percebe-se qual é o montante viável e só depois se define a zona onde se procura. Não é uma escolha de segunda opção, é uma sequência diferente de decisão, e tem consequências visíveis na distribuição da procura pelo país”, afirma.

Fica em aberto o que acontece a médio prazo. Se a procura continuar a deslocar-se para distritos com valores por operação mais baixos, a pressão sobre os preços nesses mercados tende a aumentar, o que reduz progressivamente a vantagem que os tornou atrativos. O ajustamento observado em junho pode ser, por isso, transitório na geografia mas duradouro no efeito: o mercado não deixa de procurar, procura noutro sítio, e o preço acompanha.