Macau é um pequeno território que completou 25 anos de regresso à China, depois de cinco séculos de administração portuguesa. Nestas duas décadas e meia, a Região Administrativa Especial mudou radicalmente. A atividade económica floresceu à sombra do turismo e do entretenimento, com relevo para os casinos e hotéis. As universidades locais cresceram em número e dimensão. O território expandiu e os aterros tornaram difícil reconhecer as ilhas originais.
Os traços portugueses são ainda reconhecíveis e a mistura cultural originada não só com os contributos chineses e portugueses, mas também vindos de outras partes do sudeste asiático e dos outros territórios de língua portuguesa, fazem de Macau um ponto único de interseção cultural. Lugar pequeno, mas cosmopolita, sofreu sucessivas vagas de periferização, desde a fundação de Hong Kong.
A pensar na sua integração na China, o governo lançou vários projetos que visam promover o território enquanto parte da Grande Baía e colocar ao serviço desse processo a zona antes conhecida como a Ilha da Montanha ou Hengqin. Pretende-se atrair desenvolvimento económico e a participação ativa desta região, tal como a de Hong Kong, na criação da região mais tecnológica da China.
Crescer na Grande Baía
A promessa do governo central e local é o crescimento e diversificação da economia no âmbito da Grande Baía, promovendo uma interconectividade acrescida entre as cidades e regiões que constituem a área. Oferecem-se oportunidades de desenvolvimento económico, científico e tecnológico que podem ser alargadas aos parceiros internacionais.
Recentemente e depois de três visitas de Pedro Sánchez à República Popular da China, o governo central e o governo de Macau concordaram em transformar o território de plataforma entre a China e os países de língua portuguesa em plataforma entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola.
Esta transição demonstra o relevo que a Espanha conseguiu obter junto das autoridades chinesas, mas também a vontade que a China tem de, através de Espanha, contornar os obstáculos que agora se adensam na cooperação e relação comercial entre a China e os países da América Latina.
Neste contexto, não só Macau pode ganhar relevância como se espera que a Espanha aproveite esta oportunidade para lançar consórcios que permitam a sua entrada na Grande Baía. Face a estes desenvolvimentos, Portugal e as suas empresas podem esperar uma nova concorrência pela atenção do governo da Região Administrativa de Macau.
A visita do Chefe do Executivo de Macau, Sam Hou Fai, a Portugal reflete a vontade de uma reaproximação de Macau a Portugal, após visitas de figuras destacadas do governo português e do Presidente da Assembleia da República. Mas esta visita integra um roteiro mais lato que inclui Madrid, e as instituições de relevo sediadas na Europa como a União Europeia e a Organização Mundial de Comércio.
Numa entrevista ao canal público de Macau, TDM, o Chefe do Executivo refere que esta visita terá, sobretudo, objetivos económicos e que se fará acompanhar por uma delegação de empresários. A economia de Macau encontra-se entre o dilema da diversificação e a necessidade de se afirmar no contexto da Grande Baía, pelo que a convergência entre empresários portugueses e macaenses poderia ser do maior interesse para ambos.
O património cultural do período da administração portuguesa continua a ser o elemento diferenciador de Macau. Uma maior presença de produtos portugueses pode assim encaixar num território muito dependente das visitas externas e do consumo turístico. A oferta de produtos únicos de excelência como os vinhos, cafés ou doçaria poderia ser um complemento à oferta existente, sobretudo, se tiver capacidade para se expandir para a Grande Baía e para os mercados de consumo sofisticado aí existentes.
Contudo, o objetivo seria sempre ir mais além e abraçar não só o mercado em Macau, mas obter parcerias que possam posicionar as empresas portuguesas naquele que vai ser o mercado com mais poder de compra da China.
Trabalhar a memória e abraçar o futuro
Sem em parcerias bilaterais ou trilaterais, lembrar o passado não chega, sobretudo, numa região que almeja lançar-se no futuro. A memória e o património podem efetivamente ser usados como compromisso e garantia de uma presença continuada, mas são insuficientes.
A tendência para a diminuição da dimensão da comunidade portuguesa lança novos desafios. Por um lado, encarar o mercado em Macau e na Grande Baía como um mercado de internacionalização com pouca ligação à comunidade e ao consumo da saudade, apesar de este persistir, essencialmente, entre os portugueses e os macaenses. Por outro lado, compreender que esta diminuição não implica uma menor qualidade dos portugueses que podem mediar e apoiar o lançamento das empresas portuguesas no território.
O seu conhecimento do novo contexto de Macau e dos territórios ao seu redor, tornam ainda mais relevante a aproximação a uma comunidade que cada vez mais afirma a sua presença local pelas suas competências técnicas.
Se o investimento português em Macau e na Grande Baía poderá ser ligado a uma presença histórica no local e a relações seculares com as populações locais, a verdade é que, neste momento, os empresários chineses estão muito mais focados no presente e no futuro.
Empresas tecnológicas portuguesas poderão ali encontrar algum espaço se associadas a empresas locais. A indústria da hospitalidade também poderá beneficiar da excelência dos produtos e serviços portugueses, sobretudo, se pensado como um primeiro passo para entrada num dos mercados de consumo de lazer sofisticado e em que as grandes marcas internacionais já estão instaladas.
A visita do Chefe do Executivo poderá não trazer grandes novidades, mas trará decerto a oportunidade de explorar a entrada através de Macau neste grande mercado da Grande Baía que a China tem vindo a criar.
A entrada de Espanha no território só pode ser encarada como prova do seu interesse económico. A grande questão é se Portugal e os empresários portugueses estarão dispostos a atualizar o seu conhecimento sobre a região e a ver nesta uma oportunidade.