Saí de casa de manhã para trabalhar. Voltei horas depois e, entretanto, o mundo pareceu perder qualquer referência de coerência.
No espaço de uma aula:
- O Donald Trump entra em conflito com o Papa.
- Giorgia Meloni posiciona-se ao lado do Papa e é imediatamente apelidada de fraca.
- O Papa está na Argélia a celebrar Santo Agostinho.
- A Espanha alinha-se com a China, num exercício político difícil de decifrar.
- Trump apaga uma imagem sua representado como Jesus Cristo.
- Emmanuel Macron admite restringir o acesso de menores às redes sociais.
- Fala-se de escassez de fertilizantes e, com isso, da possibilidade real de fome em várias geografias e de quebras em cascata nas cadeias de valor.
- A Rússia retoma ataques de drones na Ucrânia.
- Ninguém consegue explicar, com clareza, o que se passa em Gaza.
- As Filipinas acusam a China de envenenar águas.
- Em Portugal, a despesa do SNS com prestadores de serviços continua a aumentar.
- Israel e Líbano iniciam e terminam negociações diretas de paz sem acordo, sob “liderança” de Marco Rubio.
- Três navios entram e cinco saem do Estreito de Ormuz.
- O Paquistão quer relançar negociações entre EUA e Irão.
- Volodymyr Zelensky vai colaborar com a Alemanha no desenvolvimento de drones.
- O FMI corta a previsão de crescimento mundial para 3,1% em 2026, um número que já parece otimista.
- Madonna anuncia um novo álbum.
- O curso de Medicina da Universidade de Évora é chumbado.
- Portugal vence a Letónia no futebol feminino.
Tudo isto no intervalo de uma aula!
A questão já não é o que está a acontecer. A questão é: como é possível pensar sobre o que está a acontecer?
Numa sessão recente da COTEC Portugal, o Professor Marçal Grilo disse algo que deveria ser obrigatório repetir diariamente: “Tenho cada vez mais dúvidas e cada vez mais desconfiança das pessoas que têm muitas certezas.”
Vivemos numa era que promove certezas rápidas, opiniões instantâneas e julgamentos binários. Uma era em que quem hesita perde espaço para quem afirma mesmo que não saiba. Mas o que está verdadeiramente em causa não é apenas a incerteza. É a substituição de regras por impulsos. De instituições por indivíduos. De valores por conveniência.
Estamos a assistir, em tempo real, à normalização de um modelo de poder que durante décadas julgámos ultrapassado: o poder dos mais ruidosos, dos mais agressivos, dos que confundem visibilidade com legitimidade. O poder dos “bullies”.
Num mundo assim, as alianças tornam-se transacionais. Duram menos do que muitos casamentos modernos. Os valores adaptam-se ao contexto. A coerência torna-se um luxo. E há um risco ainda mais profundo: começarmos a aceitar isto como inevitável. A velocidade a que tudo acontece não é apenas um desafio operacional — é um problema ético. Porque impede a reflexão. E sem reflexão não há responsabilidade.
Escrever um artigo que será publicado dias depois torna-se, por isso, um exercício quase absurdo. Quantos dos factos acima ainda serão relevantes? Quantos já terão sido substituídos por outros, igualmente absurdos? E, no entanto, talvez seja exatamente por isso que escrever, e pensar, se torna mais urgente.
Porque o que está em causa não são os factos isolados. É o padrão que eles revelam. Estamos, possivelmente, a viver um dos momentos mais extraordinários da história da humanidade. Não pela estabilidade, não pelo progresso linear — mas pela combinação explosiva de velocidade, incerteza e fragilidade institucional. E, se não tivermos cuidado, este será também um dos momentos mais embaraçosos da nossa história coletiva. Não por falta de informação. Mas por falta de discernimento.
Não por ausência de liderança. Mas por excesso de ego.
Não por desconhecimento. Mas por desistência de pensar.
Talvez a resposta não esteja em tentar acompanhar tudo. Nem em procurar certezas onde elas já não existem. Talvez esteja em fazer exatamente o contrário do que o sistema incentiva: parar, questionar, duvidar. E, sobretudo, desconfiar profundamente de quem nunca duvida.