Durante décadas, a ideia instalou-se no futebol como uma verdade quase inquestionável: nas decisões por penáltis, quem marca primeiro parte em vantagem. Mas o estudo recente Rethinking penalty shootout strategies: How psychological leverage shapes performance vem desmontar essa convicção e aponta para um fator mais determinante — o peso psicológico dos momentos.
A investigação, baseada em simulações computacionais e na análise de 576 grandes penalidades cobradas em 60 desempates internacionais (Campeonatos do Mundo e Europeus), conclui que a ordem de remate não influencia diretamente o sucesso. O que realmente faz a diferença é o tipo de pressão enfrentado em cada momento.
Os dados revelam uma discrepância significativa: quando um jogador remata em situação de “evitar a derrota” — isto é, quando falhar elimina imediatamente a equipa — a taxa de sucesso desce para cerca de 62%. Já nos momentos em que o remate pode decidir o jogo (“marcar para ganhar”), a eficácia sobe para aproximadamente 92%.
Esta diferença de cerca de 30 pontos percentuais evidencia o impacto da pressão psicológica no desempenho. As equipas que rematam em segundo lugar enfrentam com maior frequência cenários de sobrevivência, o que ajuda a explicar por que razão parecem estar em desvantagem — mesmo que a ordem, por si só, não seja o fator decisivo.
Quando os investigadores ajustaram os resultados para este efeito de pressão — descrito no estudo como “alavancagem psicológica” — a suposta vantagem de marcar primeiro praticamente desapareceu. Ou seja, não é começar que dá vantagem, mas sim evitar os momentos mais penalizadores do ponto de vista emocional.
O estudo sugere ainda que a estratégia ideal pode depender menos da ordem escolhida e mais da preparação psicológica dos jogadores. A capacidade de lidar com cenários de alta pressão torna-se, assim, um fator tão ou mais importante do que a técnica.
No fundo, os penáltis deixam de ser uma simples alternância de remates para se afirmarem como um jogo dentro do jogo — uma sucessão de decisões sob tensão crescente, onde cada momento redefine a dificuldade da tarefa.
Num desporto frequentemente decidido por detalhes, este estudo reforça uma ideia essencial: nos penáltis, a diferença não está apenas nos pés — está, sobretudo, na cabeça.