Portugal continua a não valorizar plenamente a sua capacidade científica e tecnológica na área da saúde, defendendo-se que existe um padrão persistente de procura de validação externa que enfraquece o ecossistema interno de inovação.

“Temos muito talento em Portugal que não nos damos ao trabalho de apreciar. Estamos sempre em busca do que se faz lá fora, muitas vezes menos progressista do que aquilo que temos capacidade para fazer cá dentro”, afirmou Maria de Belém Roseira, sublinhando que este fenómeno resulta sobretudo de uma “questão cultural que tem de ser ultrapassada”.

A antiga governante, que tutelou a pasta da Saúde no XIII Governo Constitucional liderado por António Guterres entre 1995 e 1999, defendeu que o país precisa de “potenciar e escalar os seus recursos internos”, de forma a reforçar simultaneamente a sua capacidade produtiva e a sua autoestima coletiva.

“Se não acreditarmos em nós, ninguém acreditará”, referiu, acrescentando que o reconhecimento internacional do talento português contrasta frequentemente com uma subvalorização interna do mesmo.

Durante a intervenção, Maria de Belém Roseira destacou ainda a importância crescente da tecnologia no setor da saúde, em particular das ferramentas baseadas em inteligência artificial. No entanto, deixou claro que estas soluções devem ser encaradas como instrumentos de apoio e não como substitutos da decisão clínica.

“Esta ferramenta da UpHill Health pode mesmo ajudar o sistema de saúde. Ela não substitui a decisão médica, ajuda o médico a ter uma visão mais alargada que lhe permita escolher aquilo que é melhor para cada pessoa”, afirmou.

A ex-ministra recordou também experiências de inovação organizacional no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente sistemas de triagem telefónica que permitiram reduzir a pressão sobre as urgências pediátricas através de algoritmos e encaminhamento orientado por profissionais de saúde, como o dói, dói, trim, trim lançado em 1999 para a pediatria.

Segundo Maria de Belém Roseira, essas iniciativas demonstram que a inovação pode produzir ganhos significativos de eficiência, mas enfrentam frequentemente resistências institucionais e legais. “Foi uma pedrada no charco, mas muito difícil de montar”, referiu, apontando barreiras como questões de responsabilidade clínica, burocracia e falta de mecanismos de avaliação consistentes.

A antiga governante deixou ainda uma crítica à forma como o sistema público avalia políticas e projetos-piloto, defendendo que Portugal precisa de melhorar a sua capacidade de análise e de decisão baseada em evidência.

“Tomamos más decisões porque não somos capazes de avaliar aquilo que realmente funciona e deve ser alargado”, concluiu.

As declarações foram proferidas no contexto do debate sobre inovação em saúde digital e inteligência artificial, num encontro que reuniu especialistas, investigadores e decisores políticos no Summit International da Uphill Health, em Lisboa.