Em tempos de guerra, a fronteira entre necessidade e oportunidade torna-se perigosamente difusa. A Ucrânia, sob a liderança de Volodymyr Zelensky, tem sido celebrada por sua resiliência diante da agressão russa. No entanto, à medida que o conflito se prolonga, emerge uma dimensão mais inquietante: a transformação da guerra em ativo exportável.
A recente aproximação de Kiev com países do Golfo — oferecendo tecnologias de defesa, sistemas antidrones e conhecimento operacional adquirido em combate real — revela mais do que uma simples diversificação diplomática. Trata-se de uma inflexão estratégica que reposiciona a guerra como fonte de valor. O conflito deixa de ser apenas destruição e passa a produzir capacidades transferíveis, com implicações militares e económicas.
É nesse ponto que surge a ambiguidade. Ao transformar a sua experiência de guerra em ativo transacionável, a Ucrânia corre o risco de deslocar-se de uma posição moralmente clara — a de vítima de agressão — para uma postura mais ambivalente, na qual a guerra também se torna recurso. A distinção entre resistência legítima e instrumentalização estratégica torna-se menos nítida.
Há, evidentemente, uma lógica pragmática. Kiev necessita de financiamento, aliados e relevância em um sistema internacional instável, especialmente diante das incertezas associadas a Donald Trump. Ao mesmo tempo, países do Golfo enfrentam ameaças concretas — como drones e guerra assimétrica — e veem na experiência ucraniana um ativo valioso. A convergência de interesses é real, mas revela uma transformação mais profunda: a guerra como ecossistema transacionável.
Quando o conflito entra na lógica de mercado, o risco não é apenas sua continuidade, mas sua normalização. Para os aliados ocidentais, isso cria um desconforto silencioso: como sustentar a narrativa de solidariedade quando ela passa a coexistir com a comercialização da guerra?
Do ponto de vista estratégico, a manobra de Zelensky é sofisticada. Ao expandir suas relações para além da NATO, a Ucrânia reduz sua dependência do Ocidente. No entanto, ao se aproximar de contextos marcados por lógicas de antecipação militar — como nas tensões envolvendo o Irão —, corre o risco de diluir a clareza de sua posição moral original.
A legitimidade internacional da Ucrânia sempre esteve ancorada na violação inequívoca de sua soberania por parte de Vladimir Putin. Ao associar-se a uma guerra assimétrica e de escolha como esta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, essa clareza pode tornar-se mais difícil de sustentar — não por equivalência, mas por contaminação perceptiva.
A história sugere cautela. Estados que incorporaram a guerra como vetor económico raramente controlaram suas consequências. O que começa como estratégia de sobrevivência pode evoluir para dependência estrutural de um estado de conflito permanente.
A Ucrânia luta legitimamente por sua sobrevivência. Mas, ao transformar a guerra em ativo, arrisca alterar a natureza dessa luta. Quando a guerra deixa de ser apenas um meio e passa a gerar valor em si mesma, a paz deixa de ser um destino inevitável — e passa a ser, perigosamente, uma escolha.