Quando dizemos “é uma boa exposição”, a que nos referimos concretamente? Ao facto de nos fazer pensar? Ao incómodo que causou? Ao horror-lucidez que nos transmite? À beleza das obras? Tudo subjetivo, sim, mas tudo passível de ser discutido. E se o mundo inteiro é um palco, palavras que o Bardo pôs na boca de uma personagem, nesta exposição, o palco é o estúdio de Pablo Picasso. Quem passou à porta do nº 49 da rue Gabrielle, em Montmartre, Paris, seguramente tentou imaginar o que viveu o artista espanhol no seu primeiro ateliê. Mas outros teve, onde se aplicou a desconstruir o teatro que habita as suas telas.

É essa a proposta de “Theatre Picasso”, na Tate Modern, em Londres. A dança marca presença, ou não fosse uma expressão pela qual Picasso manifestou interesse desde cedo. Assinou dez produções para ballet, a maioria das quais para os Ballets Russes, uma companhia itinerante de ballet criada pelo empresário Sergei Diaghilev, ativa entre 1909 e 1929. A companhia é hoje considerada a mais influente do século XX, em grande parte devido à sua natureza vanguardista. Picasso não foi o único a colaborar com os Ballets Russes. Músicos como Igor Stravinsky, Claude Debussy e Erik Satie, e artistas plásticos como Kandinsky e Matisse são nomes indissociáveis dos Ballets. Até Coco Chanel atuou como figurinista em algumas das produções da companhia.

Picasso foi apresentado a Diaghilev pelo escritor Jean Cocteau, que estava a escrever o argumento para “Parade” e era vizinho do artista em Roma. O envolvimento de Picasso com o mundo das artes performativas resultou no seu casamento, em 1918, com a bailarina dos Ballets Russes Olga Khokhlova. Foi uma das suas primeiras musas, a que depois se somou um longo rol de amantes. Do design de cenários e cortinas de palco até à criação de figurinos, Picasso em tudo tocou. A sua última participação oficial no ballet foi em 1962, mas o seu fascínio pelo corpo e pelo movimento estendeu-se às muitas das pinturas que criou entre as décadas de 1940 e 1960.

Não terá sido por acaso que o seu amigo Guillaume Apollinaire, poeta e inventor do termo “cubismo”, escreveu, em 1917, que “o casamento entre pintura e dança, entre plasticidade e mímica, marca o advento de uma arte mais completa.” O mote está dado. “Les Trois danseuses” (As três bailarinas), “O Acrobata” ou “Mulher nua numa poltrona vermelha” são algumas das obras, entre têxteis, esculturas e desenhos, que acompanham o visitante por este “palco”, com curadoria de Wu Tsang e Enrique Fuenteblanca. Dançamos?

Theatre Picasso | até 12 de abril | Tate Modern, Londres