Os ataques de que o Irão tem sido alvo estão a servir de esteio, por outro lado, à reversão do fim da influência que a União Soviética conheceu a partir do momento em que, em 1972, o então presidente egípcio, Anwar Sadat, expulsou os conselheiros militares soviéticos do país, rompendo a aliança que mantinha com Moscovo e aproximando-se dos Estados Unidos. O mundo árabe segui-lhe o rumo – e até mesmo Israel deixou de confiar no regime comunista, seu aliado até à Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. O fim do regime sírio de Bashar al-Assad (em dezembro de 2024) foi o termo da aventura russa no Médio Oriente.

Agora, Moscovo – que está a reencher os cofres do Estado à custa do bloqueio do Estreito de Ormuz – está a testar o regresso. O ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, tem canal aberto para conversar com o seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, a quem ligou esta semana para pressionar o Irão a aceitar uma paz honrosa.

De seguida, na passada terça-feira, a Rússia e a Liga Árabe realizaram consultas de alto nível para debaterem o contexto da guerra ao Irão. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia adiantou em comunicado que o vice-ministro Georgy Borisenko realizou consultas com o vice-secretário-geral da Liga Árabe, Hossam Zaki. “Houve uma troca de opiniões aprofundada sobre a situação na zona do Golfo Pérsico no contexto da agressão em curso dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, que está a ter um impacto extremamente negativo na situação dos países vizinhos com os quais a Rússia mantém estreitos laços de amizade”, disse o ministério. A Rússia enfatiza que a crise deve ser resolvida política e diplomaticamente, destacando que uma estrutura de segurança sustentável, a não proliferação nuclear, o fornecimento estável de energia e mecanismos de investimento confiáveis ​​no Oriente Médio são do interesse de todos os países da região.

O nuclear

Um dos exemplos mais claros da estratégia russa de regressar à região é o projeto de expansão da Rosatom, a companhia estatal de energia nuclear. A empresa é a contratante do projeto de construção da primeira central nuclear comercial do Egipto, em El Dabaa, na costa mediterrânica. O projeto prevê a construção de uma central com quatro reatores, cada um com cerca de 1.200 MW. A Rosatom fornece construção, combustível nuclear, serviços de operação e manutenção e apoio a longo prazo ao ciclo de combustível. O projeto deve arrancar ainda antes do final da década: além dos quatro blocos já em construção, está em análise a possibilidade de ampliar o conjunto.

No Irão, a presença da Rosatom é antiga. Construiu e opera a central nuclear de Bushehr, a única grande central nuclear do Irão e está envolvida na ampliação de duas unidades adicionais no mesmo local. A construção das novas unidades foi suspensa devido aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, mas a Rosatom afirmou recentemente que permanece comprometida com o projeto. Antes da intensificação do conflito regional, a Rosatom e o regime de Teerão discutiam planos para construir um segundo parque nuclear.