Num momento em que a Europa procura reduzir dependências energéticas externas, o espaço atlântico português pode transformar-se num ativo estratégico para a segurança energética do continente. Com a eletrificação da economia, o crescimento da procura energética e o potencial da eólica offshore, Portugal pode desempenhar um papel cada vez mais relevante no novo mapa energético europeu.

Durante décadas, o sistema energético europeu foi construído sobre uma forte dependência de importações. Petróleo do Médio Oriente, gás da Rússia, carvão de vários continentes. Ainda hoje, cerca de 58% da energia consumida na União Europeia é importada, segundo dados do Eurostat. Antes da invasão da Ucrânia, cerca de 45% do gás importado pela União Europeia vinha da Rússia. Apesar dos esforços de diversificação, a Europa continua a gastar mais de 370 mil milhões de euros por ano em importações energéticas, sobretudo em petróleo bruto e gás natural provenientes de países como Noruega, Estados Unidos, Cazaquistão, Argélia e vários produtores do Médio Oriente.

A guerra na Ucrânia mostrou os riscos dessa dependência. Mais recentemente, as tensões militares envolvendo o Irão voltaram a expor a vulnerabilidade do sistema energético global a choques geopolíticos. A política energética europeia deixou, assim, de ser apenas uma questão económica ou ambiental. Passou a ser também uma questão de segurança, autonomia estratégica e resiliência económica.

Vários líderes europeus, entre eles o primeiro-ministro português, apelaram recentemente à Comissão Europeia para que não enfraqueça o mercado europeu de carbono. Manter a ambição climática não é apenas uma questão ambiental: é também uma forma de reduzir dependências energéticas externas.

A eletrificação da economia

Grande parte da energia consumida na Europa continua associada à combustão, nomeadamente nos transportes, aquecimento de edifícios e muitos processos industriais. A eletrificação progressiva destes sectores é uma das formas mais eficazes de reduzir importações energéticas, desde que essa eletricidade seja produzida dentro da própria Europa.

Sabemos que o custo da energia continua a ser uma preocupação para famílias e empresas. No entanto, a subida abrupta do preço do gás na Europa após a invasão da Ucrânia demonstrou como a dependência de combustíveis importados pode provocar choques de preços que se propagam a toda a economia. Quando os preços do gás ou do petróleo disparam nos mercados internacionais, o custo de produção das centrais fósseis aumenta e isso tende a pressionar o preço da eletricidade no mercado europeu, reforçando a competitividade relativa das energias renováveis.

Quando se observa o sistema elétrico europeu como um todo, surgem oportunidades adicionais. A variabilidade do vento e do sol entre regiões e ao longo do tempo, cria condições de complementaridade na produção renovável. Uma rede elétrica europeia mais interligada permite tirar partido dessa diversidade, equilibrar a produção de base renovável e aproximar a Europa de um verdadeiro sistema elétrico continental.

O crescimento da procura energética

É neste contexto que surge um novo desafio para Portugal: o crescimento esperado da procura elétrica.

Mais recentemente, o Conselho de Ministros de 19 de março de 2026 aprovou um conjunto de medidas para reforçar a segurança de abastecimento, proteger os consumidores e acelerar a transição energética, em linha com a transposição das diretivas europeias, nomeadamente a RED III. Destacam-se a criação de Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, com processos de licenciamento mais rápidos, bem como mecanismos para desbloquear capacidade na rede elétrica. Em paralelo, o Plano Nacional de Centros de Dados aponta para um aumento estrutural da procura elétrica associado à economia digital.

Estas medidas representam um passo relevante. Simplificam o licenciamento, aceleram projetos e reforçam a proteção dos consumidores.

No entanto, permanece uma questão central: serão suficientes para responder à escala da procura que começa a emergir? A aceleração de projetos existentes é essencial, mas não garante, por si só, que o sistema elétrico venha a dispor de capacidade suficiente para acompanhar o crescimento estrutural da procura, associado à digitalização, à indústria eletrificada e à produção de hidrogénio.

O mecanismo de Zona de Grande Procura revelou uma mudança significativa na escala dessa procura. No polo industrial de Sines, a consulta realizada em 2023 resultou em projetos com cerca de 4,9 GVA de capacidade de ligação solicitada e, em 2026, uma consulta nacional identificou 5,6 GVA adicionais, associados sobretudo a centros de dados, hidrogénio verde e indústria eletrificada. No total, os dois processos identificaram cerca de 10,5 GVA de novos pedidos de ligação à rede elétrica.

O sistema elétrico português registou em 2025 um consumo anual de cerca de 53 TWh e um pico de procura próximo de 10 GW, num sistema com cerca de 25 GW de capacidade instalada, dominado por fontes renováveis. Os projetos identificados nas consultas de Zona de Grande Procura representam, assim, uma ordem de grandeza semelhante ao atual pico de consumo nacional. Estes valores não correspondem necessariamente a potência utilizada em simultâneo, mas revelam a escala da nova procura industrial que poderá surgir na próxima década. Num cenário de elevada simultaneidade destes consumos com os atuais picos do sistema, a procura total poderia aproximar-se do dobro dos níveis atuais. A sua concretização implicará, por isso, um reforço significativo das redes elétricas e a instalação de nova capacidade de produção de eletricidade, maioritariamente de origem renovável e apoiada por soluções de armazenamento energético.

O potencial da eólica offshore como oportunidade estratégica

Neste contexto de crescimento da procura elétrica, a energia eólica offshore surge como uma oportunidade estratégica para Portugal. O país tem atualmente apenas um projeto offshore em operação, WindFloat Atlantic, com cerca de 25 MW, mas dispõe de condições atlânticas particularmente favoráveis ao desenvolvimento desta tecnologia, com alguns dos melhores recursos eólicos da Europa e vastas áreas marítimas adequadas a parques flutuantes de grande escala.

As zonas identificadas para o desenvolvimento inicial desta indústria localizam-se ao largo de Viana do Castelo, Leixões, Figueira da Foz e Sines, áreas com potencial eólico e ligação a importantes infraestruturas portuárias e industriais. O desenvolvimento destes polos poderá reforçar a produção elétrica no litoral português e criar as bases para uma infraestrutura elétrica offshore interligada, capaz de integrar a produção eólica no sistema elétrico nacional e, progressivamente, numa rede energética europeia cada vez mais interconectada.

Mais do que novos parques eólicos, trata-se de construir uma nova infraestrutura energética no Atlântico. Uma rede offshore interligada poderá ligar centros de produção renovável a diferentes países europeus, reforçando a segurança energética do continente e criando novas rotas de eletricidade limpa.

Além da segurança energética, esta transformação está também alinhada com a agenda de resiliência territorial associada ao PTRR, que procura reforçar a capacidade de resposta do país a fenómenos climáticos extremos.

A transição energética europeia não é apenas uma mudança tecnológica. É também uma redefinição geográfica do sistema energético do continente. Num continente historicamente dependente de energia externa, esta transformação representa uma mudança estrutural na forma como a Europa garante a sua autonomia estratégica, estabiliza os custos da energia e reduz a exposição a choques geopolíticos.

Portugal, com o seu espaço atlântico, os seus recursos renováveis e a sua posição geográfica, pode passar de periferia energética a um dos pilares da segurança energética europeia no Atlântico.