Veneza poderá ter de escolher entre quatro estratégias de adaptação radical nas próximas décadas para sobreviver à subida do nível do mar, segundo um estudo publicado na revista Scientific Reports e divulgado pela Springer Nature. Entre as opções estão o reforço das atuais barreiras móveis, a construção de diques em anel, o encerramento da Lagoa de Veneza ou, no cenário mais extremo, a relocalização total da cidade.

Veneza, situada na lagoa de Veneza e classificada como Património Mundial da UNESCO, tem registado cheias cada vez mais frequentes nos últimos 150 anos, num processo que combina alterações climáticas e afundamento gradual do terreno. As atuais defesas contra inundações da cidade incluem um conjunto de três barreiras móveis na margem da lagoa mas, serão suficientes?

A investigação, liderada por uma equipa internacional, baseia-se nas projeções regionais do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e procura avaliar a viabilidade de diferentes respostas à ameaça crescente de inundações que há mais de um século afeta a cidade italiana.

Barreira atual pode não ser suficiente

O sistema atual de proteção — um conjunto de barreiras móveis instaladas nas entradas da lagoa — poderá continuar a ser eficaz apenas até cerca de 1,25 metros de subida do nível do mar, desde que seja complementado com medidas adicionais. Contudo, os investigadores alertam que este limite poderá ser ultrapassado já no próximo século, sobretudo em cenários de elevadas emissões e devido à subsidência do solo.

Diques, “super-aterro” ou separação da lagoa

Entre as alternativas estudadas, destaca-se a construção de diques que isolariam o centro histórico do restante sistema lagunar. Esta solução poderá tornar-se necessária quando a subida do mar ultrapassar os 0,5 metros, eventualmente antes de 2100 no cenário de emissões mais elevadas.

Outra hipótese passa pelo encerramento total da lagoa através de um “super dique”, criando uma barreira contínua contra o mar. Segundo os autores, esta opção poderia proteger a cidade mesmo perante subidas até 10 metros — um cenário extremo, associado a horizontes temporais muito longínquos.

Ambas as soluções levantam, contudo, questões ambientais e sociais relevantes, nomeadamente o impacto nos ecossistemas da lagoa e na identidade histórica da cidade.

A hipótese mais drástica: abandonar Veneza

No cenário mais extremo analisado, a única solução viável seria a relocalização completa da cidade, incluindo população e património histórico. Os investigadores estimam que tal poderá tornar-se necessário caso o nível do mar suba cerca de 4,5 metros — algo projetado para depois do ano 2300, no cenário de emissões muito elevadas.

Custos elevados e decisões difíceis

O estudo também avaliou os custos aproximados das diferentes opções. A manutenção e expansão do sistema atual terá custado cerca de 6 mil milhões de euros. Já a construção de diques poderá variar entre 500 milhões e 4,5 mil milhões de euros.

O encerramento da lagoa com um “super dique” poderá ultrapassar os 30 mil milhões de euros, enquanto a relocalização da cidade poderá atingir os 100 mil milhões de euros.

Apesar das diferenças de escala e impacto, os autores sublinham que não existe uma solução ideal. Qualquer decisão terá de equilibrar a segurança dos habitantes, a viabilidade económica, a preservação ambiental da lagoa e a salvaguarda de um dos mais emblemáticos patrimónios culturais do mundo.

Planeamento urgente

Os investigadores alertam ainda para a necessidade de planeamento antecipado, sublinhando que grandes obras de engenharia podem demorar entre 30 a 50 anos a concretizar. Nesse sentido, as decisões tomadas nas próximas décadas serão determinantes para o futuro de Veneza num mundo em aquecimento.