O Julius Baer – grupo bancário privado suíço líder, fundado em 1890, com sede em Zurique e especializado na gestão de património (wealth management) para clientes privados e institucionais – abriu em Lisboa e já conta com 21 colaboradores, com objetivos de crescimento. A média de idades é superior a 50 anos, explicou José Maria Cazal-Ribeiro (Market Head Portugal), num encontro com jornalistas, esta quarta-feira, na sede do banco.
O gestor explicou que o banco trabalha em arquitetura aberta, com um enfoque exclusivo em wealth management.
O banco “tem apenas 20% de gestão discricionária (quando o benchmark seria 25%), sendo que os restantes 80%, que representam a maior parte do negócio, correspondem a advisory, ou seja, a decisão é tomada pelo cliente”, acrescentaram os gestores durante o encontro com jornalistas.
“O banco é extraordinariamente conservador”, afirmou o responsável em Portugal.
“A maioria dos clientes continua investida em produtos tradicionais, como obrigações, ações e fundos de investimento. Depois, naturalmente, temos acesso a hedge funds, private equity e venture capital para clientes mais sofisticados e profissionalizados”, explicou a gestão.
“Estamos a notar que há cada vez mais pessoas a vir para cá. O banco sempre teve muitos clientes estrangeiros a viver em Portugal. Uma das razões que nos trouxe até aqui foi também a possibilidade de os servir localmente”
Os clientes do banco em Portugal têm, no mínimo, 2 milhões de euros sob gestão, o que, como explicou José Maria Cazal-Ribeiro, implica que disponham de cerca de 6 milhões de euros em liquidez. Em média, cada cliente do Julius Baer em Portugal tem 4 milhões de euros sob gestão, revelaram os responsáveis.
A management explicou ainda que cerca de 10% dos clientes não são portugueses, acrescentando que a perspetiva é de crescimento desta percentagem. “Estamos a notar que há cada vez mais pessoas a vir para cá. O banco sempre teve muitos clientes estrangeiros a viver em Portugal. Uma das razões que nos trouxe até aqui foi também a possibilidade de os servir localmente”, afirmou.
Os gestores do Julius Baer em Portugal estão convencidos de que, “nos próximos cinco anos, estes 10% de clientes não portugueses poderão subir para cerca de 30%”. José Maria Cazal-Ribeiro explicou ainda que o banco está a criar um “desk Brasil” para atender clientes brasileiros a viver em Portugal, após a venda da operação de advisory no Brasil ao Pactual.
Em Portugal, os concorrentes diretos do Julius Baer são o EFG e o Rothschild, sendo estes os únicos focados exclusivamente em wealth management. Já o UBS, por exemplo, atua também em corporate e private banking. “Nós temos apenas uma linha de negócio”, sublinhou José Maria Cazal-Ribeiro, acrescentando que “não temos qualquer conflito de interesses. Procuramos as melhores soluções do mercado para necessidades específicas dos clientes”.
Questionado sobre números, o responsável explicou que “não podemos divulgar o número de clientes nem o montante sob gestão em Portugal”. Ainda assim, referiu que o banco tem cerca de 540 mil milhões de francos suíços sob gestão, dos quais 31% correspondem à Europa, sendo a Ibéria um dos core markets do grupo.
A sucursal em Portugal abriu apenas em janeiro, mas o banco já trabalhava com clientes portugueses desde 2019, a partir de Madrid. “Quando viemos para Portugal, transferimos o negócio para cá”, explicou.
“Apesar de Espanha ser cerca de cinco vezes maior e provavelmente ainda mais em termos de riqueza, o peso de Portugal no Julius Baer é superior ao seu peso proporcional”
Gonçalo Maleitas Correia, Team Head Portugal Domestic, destacou que Portugal é hoje uma peça-chave no desenvolvimento do mercado ibérico. “Apesar de Espanha ser cerca de cinco vezes maior e provavelmente ainda mais em termos de riqueza, o peso de Portugal no Julius Baer é superior ao seu peso proporcional”, afirmou.
“O nosso mote é ‘creating value beyond wealth’”, acrescentou.
O Julius Baer é um dos principais grupos bancários privados suíços, especializado em gestão de património, consultoria de investimento e planeamento financeiro para clientes particulares e intermediários. Com sede em Zurique e presença global, o banco foca-se no crescimento de ativos a longo prazo, no planeamento sucessório e na gestão personalizada de carteiras.
“O foco estratégico é exclusivo na gestão de património. A oferta é holística, abrangendo planeamento patrimonial, investimento e financiamento”, refere a gestão em Portugal. As soluções de investimento são descritas como “robustas e assentes em conhecimento especializado, sustentadas por uma forte capacidade de análise com visão global”.
Atualmente, o Julius Baer opera em cerca de 25 países e 60 localizações, contando com sete booking centers a nível mundial e parcerias com especialistas externos.
O modelo de atendimento baseia-se num gestor de relação dedicado, que trabalha em proximidade com o cliente, apoiado por uma equipa multidisciplinar. O aconselhamento é alinhado com os objetivos e expectativas de cada cliente, visando relações de longo prazo.
O banco promove também a ligação entre clientes, facilitando, por exemplo, o encontro entre compradores e vendedores dentro da sua rede.
“Já tivemos casos em que ajudámos clientes em situações de saúde, em hospitais privados, ou em questões relacionadas com viagens. A ideia é oferecer um serviço global, numa lógica de multifamily office”, referiu Gonçalo Maleitas Correia.
“Gostaria que o banco se tornasse a referência em wealth management em Portugal, tanto para clientes como para colaboradores do banco”
José Maria Cazal-Ribeiro afirmou ainda que gostaria que o banco se tornasse “a referência em wealth management em Portugal, tanto para clientes como para colaboradores do banco”.
Em 2023, o Julius Baer enfrentou uma falha na gestão de risco devido à exposição ao grupo imobiliário austríaco Signa, de René Benko. No entanto, Luís Barreto Xavier (responsável pela área de Consultoria a Clientes Institucionais, Ultra High Net Worth e High Net Worth para o mercado português) explicou que a situação foi resolvida e não comprometeu os resultados. “Em 135 anos de história, o banco nunca teve um prejuízo e nesse ano também não teve”, disse.
“Foi um crédito que correu mal, como acontece por vezes no setor bancário”, acrescentam. José Maria Cazal-Ribeiro contextualizou que, num total de 50 mil milhões em crédito, houve um problema num empréstimo de 1,5 mil milhões associado a structured finance.
“Atualmente, deixámos de fazer este tipo de crédito estruturado, pelo menos temporariamente, mas continuamos a oferecer outros tipos de financiamento”, explicou.
O crédito estruturado é um produto complexo, feito à medida, que envolve instrumentos financeiros sofisticados.
“Normalmente fazemos crédito lombard”, explicou. Trata-se de um empréstimo de curto prazo, garantido por ativos líquidos, como obrigações, ações ou apólices de seguro de vida, permitindo aceder a liquidez sem necessidade de vender investimentos.
Luís Barreto Xavier sublinhou que o banco é “quadruplamente regulado”, estando sujeito às autoridades da Suíça, Luxemburgo, Banco de Portugal e CMVM.
Sobre a conjuntura geopolítica, os responsáveis admitem que períodos de maior volatilidade podem beneficiar o banco. “Os clientes veem o Julius Baer como uma espécie de cofre”, explicaram.
Além disso, conflitos internacionais podem levar à relocalização de patrimónios. “Portugal beneficia por ser um país estável e seguro”, acrescentou Luís Barreto Xavier.
“Algumas pessoas que estão em sítios que agora estão com conflitos abertos, obviamente, podem pensar em fazer mudança de residência e, mais uma vez, Portugal vem a beneficiar disso por ser uma localização mais pacífica”, referiu.
“Continuamos a ser uma plataforma para outros continentes”, reforçou José Maria Cazal-Ribeiro.
A base de clientes inclui famílias tradicionais, empresários e um número crescente de profissionais ligados à tecnologia. “Portugal tem sete unicórnios, face a nove em Espanha, apesar de ter uma economia muito menor”, destacou.
Sem avançar com rentabilidades médias, os responsáveis referem que o banco costuma posicionar-se entre os melhores no trabalho com clientes institucionais.
“O objetivo da indústria é gerar receitas recorrentes através de comissões”, explicaram, acrescentando que, desde 2019, não registaram saídas de clientes.
A rentabilidade “depende do horizonte de investimento. Investir nos mercados de capitais exige uma perspetiva de cinco a oito anos, não de três meses”, sublinharam.
O banco oferece também private equity, embora destinado a clientes com perfil adequado, dado o horizonte de longo prazo e a menor liquidez. “O private equity é um investimento que pode demorar 10 anos e não tem liquidez”, dizem.
Investe igualmente em fundos de private equity, numa lógica de coinvestimento, mas é tudo controlado em Zurich.
O Julius Baer dispõe ainda de uma parceria para criptoativos, através de uma colaboração com a SEBA Bank AG, permitindo serviços de custódia e negociação.
No mercado de ETFs, atua sobretudo como plataforma de investimento e market maker, disponibilizando produtos de terceiros e alguns fundos próprios.
O Julius Baer Group AG é cotado na SIX Swiss Exchange, com uma base acionista maioritariamente institucional, apesar da sua origem familiar.
Relativamente aos resultados de 2025, o banco registava 521 mil milhões de francos suíços em ativos sob gestão, ativos totais de 107 mil milhões, capital próprio de 7,2 mil milhões, um resultado líquido de 764 milhões, um rácio CET1 de 17,4% e um rating de longo prazo A1 (Moody’s).