Portugal quer aprender com a experiência brasileira para desenvolver o setor nacional de biocombustível, como forma de dar respostas às necessidades de descarbonização no setor dos transportes públicos.
“Estamos a desenhar uma parceria entre Portugal e o Brasil nos biocombustíveis para nos ajudar a fazer toda a descarbonização que queremos nos transportes públicos”, disse ao JE a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho.
“A maior parte é eletrificação, mas há uma parte ainda com alguma dimensão que terá de ser feita por combustíveis líquidos de origem renovável, incluindo combustível de aviação renovável”, acrescentou a ministra.
“Queremos fazer uma parceria, o Brasil é líder mundial nesta tecnologia. Do etanol evoluiu para outros combustíveis mais sofisticados, mas tem essa tradição, esse conhecimento industrial desde há décadas”, sublinha a ministra em declarações ao Jornal Económico (JE).
“Será muito importante” para “elaborar um projeto em que poderemos ter aqui a produção em conjunto com o Brasil em solo português, o que nos vai ajudar muito e poderá ajudar também outros países europeus”, acrescenta.
A ideia é criar o quadro para abrir as portas a um investimento do setor privado na criação de infraestruturas para a produção de biocombustíveis: criando “condições” e com o “apoio das políticas de ambos os países”. Questionada sobre o valor do investimento, a ministra apontou que ainda é cedo para ter detalhes.
“Tivemos uma primeira conversa política entre o primeiro-ministro e o presidente Lula da Silva. E agora os dois ministros da Energia ficaram com o trabalho de casa: ver o como, o quando, o quanto”, explica.
Os projetos em combustíveis verdes em Portugal chegaram a atingir a ordem dos dois mil milhões de euros. Mas vários foram entretanto cancelados, como o da Navigator, na Figueira da Foz, ou o da Prio, em Setúbal.
Já outros mantêm-se, como o projeto HVO da Galp, na refinaria de Sines, para produzir biocombustíveis – gasóleo renovável, jet fuel renovável e bionafta – para descarbonizar os transportes rodoviários e aéreos, num investimento de 400 milhões de euros, em conjunto com os japoneses da Mitsui.
E o consórcio luso-neerlandês Madoqua tem um plano para investir mais de mil milhões para produzir metanol verde para descarbonizar a indústria do cimento no centro do país: em Maceira e Pataias.
Os biocombustíveis têm sido cruciais para ajudar o Brasil a aguentar o impacto do choque externo da crise energética, a par da força da petrolífera estatal Petrobras.
A história começa quando, durante a crise de petróleo dos anos 70, o Brasil criou o Proálcool, um programa para apostar em biocombustíveis para reduzir a dependência externa, recorrendo ao etanol feito à base de cana-de-açúcar e de milho.
Apesar de ser um produtor de petróleo, cerca de um terço do gasóleo que consome é comprado ao exterior, expondo a economia. O país foi mais além e criou mesmo a tecnologia ‘flex fuel’: dois depósitos nos automóveis, permitindo ao condutor escolher gasolina ou etanol conforme os preços.
O Brasil espera uma produção recorde de etanol na colheita de 2026/27, com a procura global por biocombustíveis a aumentar. A região centro-sul é a principal produtora do país.
O investimento em combustíveis de baixo carbono (biocombustíveis ou sintéticos, os e-fuels) vai cobrir apenas 25% do consumo até 2030. Para atingir as ambições globais precisaria de quadruplicar. Apenas 10% dos projetos de combustíveis limpos já atingiram a fase final de investimento, o que “evidencia a dificuldade em transformar ambição em execução industrial”, segundo um estudo da Bain/WEF.
“O mercado mantém-se num ciclo de incerteza: investidores aguardam sinais claros de procura e estabilidade regulatória, mantendo projetos estagnados por custos elevados e riscos financeiros persistentes”, diz Francisco Sepúlveda, da Bain.
“Tivemos uma primeira conversa política entre o primeiro-ministro e o presidente Lula da Silva. E agora os dois ministros da Energia ficaram com o trabalho de casa: ver o como, o quando, o quanto”, explica Maria da Graça Carvalho.