A tempestade Kristin não constituiu um episódio isolado, mas sim uma crise territorial de natureza sistémica, segundo um relatório da Presidência Aberta na Zona Centro do país, realizada pelo Presidente da República, António José Seguro, entre 6 e 10 de abril. O documento, com 96 páginas, conclui que a sucessão de fenómenos extremos teve intensidade e duração suficientes para transformar um evento severo numa perturbação prolongada, física, económica, social e institucional.
De acordo com o relatório, divulgado pelo jornal Público e ao qual a Lusa teve acesso, a destruição de infraestruturas, os prejuízos em habitações e empresas, o agravamento do risco florestal e a pressão sobre municípios e serviços públicos mostram que estes fenómenos devem ser lidos como choques encadeados e não como ocorrências isoladas. A principal vulnerabilidade revelada foi a interdependência e a insuficiente redundância dos sistemas essenciais, como energia, telecomunicações, água, acessos, floresta, habitação, atividade económica e proteção civil.
O relatório aponta fragilidades estruturais, incluindo baixa autonomia energética, redundância insuficiente, vulnerabilidade física das redes, envelhecimento ou obstrução de sistemas hidráulicos e debilidade do planeamento de manutenção e continuidade. Durante os cinco dias da Presidência Aberta, o chefe de Estado constatou a expressão económica profunda, transversal e diferenciada da crise, com micro, pequenas e médias empresas a revelar grande fragilidade perante interrupções prolongadas, atrasos dos seguros e insuficiência de liquidez.
O documento sublinha ainda que a habitação, os seguros e a proteção financeira constituíram um dos núcleos mais sensíveis da crise, com dificuldades severas na transformação dos danos em processos elegíveis e decididos em tempo útil. Além da destruição material, a crise teve uma dimensão humana profunda, com medo, exaustão, insegurança e sentimento de desproteção, especialmente entre grupos mais vulneráveis como idosos isolados, famílias com menor literacia administrativa e crianças afetadas pela perturbação escolar.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal entre o final de janeiro e o início de março na sequência das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que também fizeram várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Os temporais provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, com prejuízos de milhares de milhões de euros, afetando especialmente as regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.