‘Disclaimer’. Antes de o Jeu de Paume, em Paris, se render à tragédia cómica que é o ser humano visto pela lente de Martin Parr, já esta escriba se havia rendido ao seu superpoder: o de ser invisível àqueles que o rodeiam. Parr nunca teria captado a sociedade de consumo se não passasse totalmente despercebido entre a multidão. “Ser apenas mais um” é mesmo um superpoder e permitiu-lhe fazer instantâneos únicos do homus britanicus e dos humanos em geral.
Voltando à sua ‘arma secreta’, a fotografia, que Parr nunca usou com profundidades pomposas nem como uma aparição extraterrestre, mas sim com uma infinita curiosidade, ironia, frontalidade e aquela mistura muito britânica, um certo witty, que em português é qualquer coisa como “espirituoso; com graça”. E foi com graça que nunca se cansou de capturar em imagem um certo declínio do Ocidente.
A essa obsessão de tudo fotografar importa somar outra: tudo arquivar. Foi esse traço de personalidade que ajudou a redefinir a fotografia documental contemporânea. Desde os anos 70 que Parr se dedicou a construir um arquivo ferozmente singular da vida contemporânea, tornando-se um dos mais conhecidos fotógrafos documentais da sua geração, com mais de uma centena de livros publicados, entrada para a Magnum em 1994 e presidência da agência entre 2013 e 2017.
Claro que não é um fotógrafo consensual. Há quem lhe aponte o dedo do kitsch, há quem invoque a vulgaridade. Martin Parr nunca se importou com os adjetivos que lhe colaram ao longo dos anos. Morreu em dezembro de 2025, aos 73 anos, e fotografou sempre como lhe deu na real gana. E será honesto dizer que fotografou classes sociais sem a retórica professoral com que tantas vezes se fala delas; que apontou a sua lente à vulgaridade do lazer, à teatralidade involuntária do quotidiano, à poluição visual, às cores berrantes, ao ridículo organizado das férias, da comida, do consumo, do turismo de massas. Não define padrões de beleza, não descarta aquilo que a cultura ‘respeitável’ chama de “mau gosto”. Não mente. Não faz sociologia barata. Limita-se a mostrar aquilo que todos viam, mas que muito poucos queriam encarar.
“Global Warning”
A exposição no Jeu de Paume mostra-nos que Martin Parr não ‘tropeça’ em imagens. Tem paciência, olho para o enquadramento e muito instinto. Que solta para construir as suas imagens. É isso que “Global Warning” – em português perde-se a associação imediata a “warming”, aquecimento global – revela. Um planeta a ser despedaçado. Mas vamos à abordagem encantatória de Parr. O primeiro momento é dedicado a “Terras de Lazer e Deserto”. Um alerta aparentemente suave, embora as praias transbordem de gente. O segundo, intitulado “Tudo tem de desaparecer”, não augura nada de bom. O que mostra Parr? Um inventário do nosso consumo excessivo. Tudo grita nas imagens saturadas de cor. Dos carrinhos de compras recheados às pessoas que fazem fila para comprar cachorros-quentes ou malas Vuitton.
Em 2021, numa entrevista, afirmou que não quer doutrinar ninguém. Apenas faz “entretenimento com uma mensagem séria”. Só lê e reflete quem quer. Terceiro momento. “Pequeno planeta” exibe as massas. Humanas. As filas e filas de gente em Machu Pichu, junto à Torre de Pisa, pessoas umas em cima das outras para vislumbrar um cabelo da Mona Lisa – ou melhor, para tirar uma fotografia da dita, check! –, as hordas que desembarcam de um gigantesco navio de cruzeiro, as pirâmides no Cairo, a Sagrada Família… Alguém dirá que, estando nesses locais para os ‘documentar’, a sua pegada de carbono deixa muito a desejar… E quem é ele para fazer um “alerta global”?
Ele é Martin Parr, um fotógrafo popular sem ser populista, político sem ser panfletário, que usou a fotografia com humor e humanismo. Qual cronista visual do mundo contemporâneo.