Os procuradores dos EUA arquivaram a investigação criminal contra o presidente da Reserva Federal, Jay Powell, num desenvolvimento que pode abrir caminho para o Senado confirmar Kevin Warsh como próximo responsável máximo do banco central norte-americano, indica o “Financial Times”

Jeanine Pirro, procuradora dos EUA para o Distrito de Columbia, anunciou numa publicação no X, esta sexta-feira, que ordenou ao seu gabinete que “encerrasse a investigação” sobre derrapagens orçamentais numa obra de renovação de um edifício da Fed, remetendo o processo para o inspector-geral do banco central.

De acordo com o “Financial Times”, a decisão pode eliminar obstáculos à confirmação de Warsh no Senado. Alguns senadores republicanos, liderados por Thom Tillis, da Carolina do Norte, tinham recusado apoiar a nomeação de Warsh precisamente por causa da investigação criminal. Tillis afirmou esta semana que apoiaria Warsh “assim que o Departamento de Justiça encerre a sua investigação infundada contra o presidente Powell, que ameaça a independência da Fed”.

O desenvolvimento ocorre poucas semanas antes de o mandato de Powell como presidente da Fed terminar, a 15 de Maio. Donald Trump criticou repetidamente Powell por não ter baixado as taxas de juro.

As yields das obrigações do Tesouro desceram na sequência da notícia, com os investidores a apostarem que uma confirmação rápida de Warsh conduziria, em última análise, a taxas de juro mais baixas. A yield das obrigações a dois anos, que acompanha as expectativas de política monetária, caiu 0,05 pontos percentuais para 3,79%. Os operadores no mercado de futuros aumentaram ligeiramente as suas apostas numa descida das taxas ainda este ano, embora a probabilidade tenha subido apenas para cerca de 40%.

A investigação de Pirro representava um dos ataques mais agressivos da administração Trump à capacidade do banco central norte-americano de definir a política monetária sem interferência da Casa Branca. Trump tentou também despedir a governadora da Fed, Lisa Cook, no verão passado, com base em alegações de fraude hipotecária. Cook negou as acusações — pelas quais ainda não foi acusada formalmente — e contesta a decisão num processo no Supremo Tribunal.

A investigação do Departamento de Justiça centrava-se na questão de saber se Powell enganou o Congresso sobre uma renovação de 2,5 mil milhões de dólares da sede da Fed em Washington. Powell negou as acusações e afirmou que a investigação era uma tentativa da Casa Branca de pressionar os responsáveis do banco central a reduzir os custos de financiamento.

O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, afirmou que as “autoridades mais amplas” do inspector-geral o colocam em melhor posição para apurar a “má gestão financeira” da Fed. O próprio Powell tinha solicitado, em Julho, que o inspector-geral da Fed abrisse uma nova investigação ao custo da renovação, que regista uma derrapagem de 700 milhões de dólares face ao orçamento previsto.

Pirro tinha anunciado esta semana que recorreria de uma decisão anterior que bloqueou as suas tentativas de intimar a Fed. Contudo, os senadores republicanos vinham manifestando crescente oposição à investigação do Departamento de Justiça, levantando a hipótese de o bloqueio à confirmação de Warsh resultar na permanência de Powell no cargo além de 15 de Maio.

“Uma questão central é saber se isto é apenas uma manobra da administração para facilitar a confirmação de Warsh, partindo do pressuposto de que este se revelará dócil às vontades de Trump”, afirmou Eswar Prasad, professor na Universidade de Cornell.

Warsh, ex-governador da Fed, precisa do apoio de 51 senadores. Os republicanos detêm uma maioria de 53 lugares na câmara alta do Congresso.

Desai acrescentou: “A Casa Branca mantém a mesma confiança de sempre em que o Senado confirmará rapidamente Kevin Warsh (…) para finalmente restaurar a competência e a confiança na tomada de decisões da Fed.”