Há décadas que os principais partidos portugueses tendem a não levar a sério os maiores problemas sociais. Isto começa por se notar quando estão na oposição, período em que deveriam fazer os trabalhos de casa de preparação para quando regressarem ao poder, e não o fazem.

Não me venham com a desculpa da falta de meios quando não ocupam o poder, por três razões. Em primeiro lugar, esta alegada falta de recursos resulta de opções políticas de gastar dinheiro em outras coisas (algumas inexplicáveis) e não em gabinetes de estudos. Em segundo lugar, daquilo a que assisti, há imensa gente qualificada na sociedade civil que está disponível para colaborar.

Finalmente, posso relatar que, há quase 20 anos, fazia parte de um grupo de estudo do gabinete de estudos do PSD e tivemos mais tempo para falar sobre o PIB do 2º trimestre do que para discutir as nossas propostas para o programa eleitoral. Ou seja, há desaproveitamento quer de pessoas disponíveis, quer do trabalho que as poucas escolhidas fazem.

Os partidos também não fazem os trabalhos de casa quando são governo e já não têm a desculpa de falta de meios. Se houvesse uma vontade genuína de levar os problemas a sério, para os resolver, haveria um esforço aprofundado no seu estudo. Em vez disso, temos políticas baseadas em powerpoints que, por seu turno, parecem saídos de uma conversa de café de pessoas pouco informadas, pouco qualificadas e sem inspiração.

Tomemos o exemplo da habitação. Como é possível que, quase uma década depois do início da actual crise, ainda nenhum governo tenha tomado a iniciativa de um estudo aprofundado e quantificado desta questão? Haverá sempre divergências sobre as opções políticas das soluções (por exemplo, mais liberais ou mais intervencionistas), mas não pode haver boas soluções sem um conhecimento mínimo da realidade, base essencial de um bom diagnóstico.

Estamos a construir cerca de um terço do que se construía há 20 anos atrás, enquanto assistimos, entretanto, a uma entrada repentina e maciça de imigrantes. Já está feito um diagnóstico rigoroso dos obstáculos à construção, para além do achismo? Quanto do aumento dos custos de construção se deve ao aumento exponencial das exigências de segurança e outras (algumas delirantes)? Se os licenciamentos duplicarem, o sector da construção conseguirá acompanhar esse ritmo? E se a construção duplicar, o crédito bancário tem condições de aumentar proporcionalmente?

Haverá, certamente, muita resistência à mudança, mas há, também, muito cansaço do eleitorado face a alterações mal pensadas, que não resolvem os problemas e que, em contrapartida, criam uma miríade de novos bloqueios.