Num momento em que a inteligência artificial redefine, de forma acelerada, a natureza do trabalho, a decisão do Governo português de reforçar as competências dos Institutos Politécnicos de Porto e Leiria, aproximando-os do modelo universitário, surge como uma medida importante que merece análise crítica e, sobretudo, coragem intelectual.
À primeira vista, trata-se de uma evolução natural. Num sistema de ensino superior historicamente dual, a distinção entre universidades (orientadas para a investigação) e politécnicos (vocacionados para o ensino aplicado) tornou-se progressivamente difusa. Num mercado de trabalho em rápida mutação, onde as competências híbridas — técnicas, digitais e analíticas — são cada vez mais valorizadas, reforçar o papel dos politécnicos pode significar criar instituições mais ágeis, mais próximas das necessidades empresariais e mais preparadas para formar profissionais adaptáveis.
Esta convergência apresenta vantagens evidentes. Em primeiro lugar, pode aumentar a atratividade internacional destas instituições, permitindo-lhes competir por talento e financiamento. Em segundo lugar, legitima o crescimento da investigação aplicada, particularmente relevante num contexto de transformação digital e adoção de tecnologias de inteligência artificial (IA). Por fim, contribui para reduzir o estigma hierárquico que, durante décadas, penalizou o ensino politécnico em Portugal.
Contudo, a decisão levanta riscos significativos. A aproximação às universidades pode conduzir a uma “universitarização” dos politécnicos, diluindo a sua missão diferenciadora. Ao tentar replicar o modelo universitário, as instituições correm o perigo de perder aquilo que, em muitos casos, constitui a sua maior vantagem competitiva: a ligação estreita ao tecido produtivo e a orientação pragmática para a empregabilidade.
Num mundo do trabalho impactado pela inteligência artificial, esta distinção é precisamente o que importa preservar. A IA tende a automatizar tarefas rotineiras, tanto cognitivas como operacionais, valorizando competências que combinam conhecimento técnico com aplicação prática, resolução de problemas complexos e interação humana. Os politécnicos estão, em princípio, melhor posicionados para desenvolver este tipo de competências do que muitas universidades tradicionais.
Assim, a questão central não é se os politécnicos devem aproximar-se das universidades, mas em que termos o fazem. Se a reforma conduzir a uma maior diversidade institucional, reforçando simultaneamente a investigação aplicada e a ligação ao mercado de trabalho, poderá representar um avanço estratégico. Se, pelo contrário, promover a homogeneização do sistema, arrisca-se a ser uma oportunidade perdida.
Num país que procura afirmar-se numa economia baseada no conhecimento, mas também na aplicação desse conhecimento, Portugal precisa menos de instituições indistintas e mais de um ecossistema de ensino superior verdadeiramente complementar. A inteligência artificial não exige uniformidade — exige diferenciação inteligente.