Thijs Povel, líder da plataforma Dealflow.eu e managing partner da Ventures.eu, concedeu uma entrevista ao Jornal Económico onde analisa a situação de Portugal no ecossistema de capital de risco europeu. Segundo Povel, Portugal enfrenta um atraso estrutural, evidenciado pelo baixo investimento per capita em startups: cerca de 65,5 mil euros por 1.000 habitantes, contra 309,6 mil euros na Estónia, 233,1 mil euros na Irlanda e 227,6 mil euros nos Países Baixos, com base em dados de 2025 da Aliança Europeia de Nações em Startups (ESNA).
O especialista aponta que a falta de grandes fundos de pensões privados no país limita a disponibilidade de capital paciente. Enquanto na França, Países Baixos e países nórdicos os fundos de pensões têm exposição significativa a venture capital, em Portugal os ativos de pensões privadas totalizavam cerca de 43,6 mil milhões de dólares em 2022 (OCDE), com alocação conservadora: 63% em dívida, 20% em ações e apenas 11% em imobiliário, sendo a exposição a capital de risco insignificante. Isso obriga as scale-ups portuguesas a recorrerem a capital estrangeiro para rondas avançadas, como fizeram Feedzai, Unbabel e SWORD Health.
Entre os pontos positivos, Povel destaca que Portugal tem sido “desproporcionalmente eficaz” na captação de capital externo, através de fundos da UE, family offices e do programa Golden Visa. Para reduzir o fosso, o especialista sugere quatro medidas: reforçar o segundo pilar das pensões privadas; adotar uma versão portuguesa do modelo francês Tibi, que já mobilizou 13 mil milhões de euros; usar o Fundo de Capitalização e Resiliência (FdCR) e a Portugal Ventures como investidores âncora para atrair capital privado; e reequilibrar o apoio público entre fases iniciais e avançadas, garantindo que o financiamento seed não seque.