A Capital Group e a KKR anunciaram esta quarta-feira a expansão da sua parceria global com o lançamento da primeira estratégia de investimento público-privado para investidores elegíveis na Europa e na Ásia-Pacífico. As duas empresas mantêm uma parceria exclusiva para gerir e fornecer soluções de investimento público-privado aos investidores.

Uma estratégia de crédito público-privado combina, num único fundo, instrumentos de dívida de dois universos distintos que historicamente exigiam veículos de investimento separados.

Esta expansão surge num momento em que investidores, consultores financeiros e clientes em todo o mundo estão a reconhecer a importância de investir tanto nos mercados públicos como nos privados, a fim de aceder a toda a gama de oportunidades de mercado com potencial para alcançar uma maior diversificação e um desempenho diferenciado. Em consonância com a nova categoria de estratégias público-privadas criada pela Capital Group e pela KKR, o Fundo procurará alocar aproximadamente 60 % a ativos de crédito público geridos pela Capital Group e 40 % a ativos de crédito privado geridos pela KKR.

Crédito público refere-se a títulos de rendimento fixo transaccionados em mercados regulamentados — obrigações corporativas, dívida soberana, títulos garantidos por activos (ABS/MBS) — com preços observáveis diariamente e liquidez relativamente elevada. É o universo tradicional das gestoras como a Capital Group.

Crédito privado refere-se a empréstimos e instrumentos de dívida negociados directamente entre o credor e o mutuário, sem passar por mercados públicos — tipicamente financiamento a empresas de média dimensão, leveraged loans, direct lending. Não há preço de mercado diário; a valorização é estimada por modelos. É o universo onde gestoras como a KKR dominam.

O novo fundo, denominado Capital Group KKR Global Multi-Sector+ (GMS+), combina exposição a mercados públicos e privados numa única estrutura, com o objectivo de oferecer uma solução de crédito multi-sector integrada.

O GMS+ prevê uma alocação aproximada de 60% a activos de crédito público, geridos pela Capital Group, e de 40% a activos de crédito privado, geridos pela KKR.

O fundo estará inicialmente disponível através do HSBC Private Bank em mercados seleccionados, e oferecerá resgates mensais de até 3% do valor total dos activos, uma liquidez acima do que é tipicamente disponibilizado em fundos de crédito privado.

A iniciativa surge na sequência da parceria estratégica estabelecida entre as duas gestoras há dois anos e representa o primeiro veículo da parceria a ser lançado fora dos Estados Unidos, onde a Capital Group e a KKR já tinham colocado no mercado duas estratégias de crédito público-privado.

O fundo é gerido pela Capital Group e sub-aconselhado pela KKR, e visa proporcionar um nível elevado de rendimento corrente através do investimento em títulos de rendimento fixo cotados e em instrumentos de crédito privado.

Guy Henriques, presidente do grupo de clientes para a Europa e Ásia-Pacífico da Capital Group, afirmou que o GMS+ é “uma solução de crédito global concebida para se posicionar entre os fundos obrigacionistas tradicionais e os investimentos alternativos”.

Eric Mogelof, sócio e responsável pela área de soluções para clientes globais da KKR, sublinhou que a parceria demonstra “o poder de uma solução integrada que combina quase 150 anos de liderança em investimento”.

Do lado do distribuidor, Lavanya Chari, responsável pelo segmento de wealth e soluções premium do HSBC, destacou o alinhamento da iniciativa com a procura crescente de formas abrangentes de diversificação de carteiras por parte de investidores profissionais.

O GMS+ está estruturado como um sub-fundo da Capital -Group Alternative Investments Funds, sociedade de investimento de capital variável domiciliada no Luxemburgo, e é gerido pela Capital International Management Company Sàrl, regulada pela CSSF luxemburguesa.

A lógica deste fundo é de complementaridade. O crédito privado tende a oferecer prémios de rendimento mais elevados (o chamado illiquidity premium — uma compensação pelo facto de o investidor abdicar de liquidez imediata), mas tem acesso restrito e liquidez muito limitada. O crédito público oferece liquidez e transparência, mas os retornos são mais comprimidos pela concorrência de mercado. Ao misturar os dois, a estratégia procura capturar parte do prémio de iliquidez sem deixar o investidor completamente imobilizado.

No caso concreto do GMS+, a proporção de 60% público / 40% privado reflecte exactamente este equilíbrio: a maioria do capital fica em activos líquidos, o que permite oferecer resgates mensais (ainda que limitados a 3% do fundo por mês), enquanto a fatia privada potencia o rendimento diferenciado.

O que muda para o investidor?

Antes, aceder a crédito privado de qualidade institucional exigia investir em fundos fechados, com horizontes de 7 a 10 anos e sem possibilidade de saída antecipada. Estas estratégias híbridas tentam democratizar esse acesso — dentro de limites, e apenas para investidores qualificados — oferecendo um produto com características mais próximas de um fundo aberto tradicional, mas com exposição a activos que antes estavam reservados a grandes instituições.

O principal risco desta arquitectura é precisamente a tensão entre a liquidez prometida e a natureza ilíquida de parte da carteira — uma fragilidade que o próprio fundo reconhece nos seus factores de risco, ao admitir que em condições de stress de mercado os resgates podem ser suspensos ou diferidos.