A valorização do salário mínimo nacional representa um dos mais importantes avanços sociais das últimas décadas. Num país onde durante muito tempo o trabalho não protegeu da pobreza, esta evolução deve ser reconhecida como um sinal de progresso.

Contudo, centrar o debate sobre os salários apenas na evolução do salário mínimo pode impedir-nos de compreender uma transformação mais profunda do mercado de trabalho.

Nas últimas décadas, a organização do trabalho mudou profundamente. A digitalização acelerou processos, as empresas tornaram-se mais leves, as equipas mais reduzidas e a disponibilidade permanente passou, em muitos setores, de exceção à regra. Hoje exige-se mais rapidez, maior flexibilidade, mais capacidade de adaptação e níveis de produtividade que seriam difíceis de imaginar há apenas alguns anos.

No entanto, a valorização do trabalho não acompanhou, em muitos casos, esta intensificação das exigências.

Enquanto médica do trabalho e gestora de serviços de saúde, acompanho diariamente trabalhadores de diferentes setores de atividade, profissões e níveis de qualificação. Apesar da diversidade das suas funções, muitos descrevem um padrão comum: aumento continuado da carga de trabalho, dificuldade em desligar da atividade profissional, perda de tempo para a vida pessoal, maior pressão para cumprir objetivos e uma crescente sensação de desgaste.

É significativo que estas preocupações raramente comecem pelo salário. Começam pelo cansaço.

Este facto merece reflexão. Porque o salário, isoladamente, não explica o sofrimento relacionado com o trabalho. Mas também é verdade que a remuneração constitui uma das formas mais objetivas de reconhecimento social do valor do trabalho realizado. Quando as exigências aumentam de forma continuada e esse reconhecimento permanece praticamente inalterado, instala-se um desequilíbrio que a Medicina do Trabalho conhece bem.

A evidência científica tem demonstrado que o desfasamento persistente entre as exigências do trabalho e os recursos disponíveis, sejam eles remuneratórios, organizacionais ou relacionais, constitui um importante fator de risco psicossocial. A exaustão emocional, a ansiedade, a perda de motivação, o presentismo, o absentismo e a rotatividade não surgem por acaso. São frequentemente a expressão de organizações que pedem cada vez mais sem criarem condições para que esse esforço seja sustentável.

Por isso, talvez seja tempo de olhar para a saúde dos trabalhadores como um verdadeiro indicador económico.

As consultas de Saúde do Trabalho constituem um observatório privilegiado das transformações do mercado de trabalho. Antes de muitas mudanças surgirem nos relatórios de produtividade, nos indicadores de rotatividade ou nas estatísticas do absentismo, tornam-se visíveis na saúde de quem trabalha.

Quando um número crescente de trabalhadores, qualificados ou não, relata fadiga persistente, dificuldade em recuperar entre jornadas de trabalho, perda de sentido, ansiedade ou incapacidade para conciliar trabalho e vida pessoal, não estamos apenas perante um problema clínico. Estamos perante um sinal de que existe um desequilíbrio na forma como o trabalho está organizado e valorizado.

Esta reflexão não diminui a importância da valorização do salário mínimo. Pelo contrário. Uma sociedade mais justa exige que ninguém que trabalhe viva na pobreza. Mas exige igualmente que a valorização do trabalho não se esgote nesse objetivo.

Uma economia sustentável depende da inovação, da produtividade e da competitividade. Mas depende também da capacidade de preservar a saúde física e psicológica daqueles que produzem essa riqueza. Ignorar este facto significa aceitar que parte do crescimento económico continue a ser financiado através do desgaste silencioso dos trabalhadores.

Talvez esteja na altura de acrescentar uma nova pergunta ao debate económico: não apenas quanto custa o trabalho às empresas, mas quanto custa o atual modelo de organização do trabalho à saúde de quem trabalha. Porque esse custo existe. Apenas continua demasiado invisível.