Entre 4 e 25 de julho de 2026, acontece a 80ª edição do Festival de Avignon que é, desde 2022, dirigido por Tiago Rodrigues (PT, 1977), o primeiro estrangeiro a tomar as rédeas daquele que é considerado o maior festival de teatro do mundo. Em 2026 assinalam-se também os 60 do Festival Off Avignon, considerado o maior mercado de teatro francófono, com uma programação que ocupa mais de uma centena de salas de espetáculos disponíveis na cidade que, por estes dias, acolhe centenas de companhias e milhares de apresentações, numa amplitude que vai do teatro à dança, passando pela performance, circo ou música, na maior diversidade em que conseguirmos imaginar estas categorias.
Avignon localiza-se na bonita região da Provença, no sudeste da França e entre 1309 e 1377 foi a capital da cristandade ocidental, quando os papas deixaram Roma e ali instalaram a cúria pontifícia. Esse episódio alterou profundamente o futuro da cidade, deixando marcas no seu Património edificado, que se ergue nas margens do Ródano. O centro histórico de Avignon foi, inclusive, inscrito na lista do Património Mundial da UNESCO em 1995. Mas em Avignon o património não funciona apenas como cenário turístico, mas como infraestrutura cultural viva.
O Festival d’Avignon utiliza desde a sua fundação espaços históricos, tais como o mítico Cour d’honneur do Palais des Papes, onde este ano estreou “Maldodor” de Julien Gosselin (FR, 1987), o atual diretor do Odéon Théâtre de L’Europe, em Paris. “Maldodor” é um monumental espetáculo de 5 horas que parte da literatura para nos falar da permanência de um ideário fascista e nazi, que não se extinguiu com o fim da II Guerra Mundial, e que está hoje a contagiar a nossa vida coletiva e global. No Lycée Saint Joseph estreou “Island Story” de Kyung-Sung (Suíça, 1983), um dos espetáculos que resulta da participação da Coreia como língua convidada desta edição, iniciativa que começou em 2023 com Tiago Rodrigues.
É esta articulação entre história, arquitetura e artes performativas que faz de Avignon uma referência internacional. Tudo começou em 1947 com Jean Vilar (FR, 1912–1971), uma das figuras mais influentes do teatro europeu do século XX, que tinha como grande ambição algo simples e profundamente democrático: fazer do teatro um bem público, acessível a todos. A criação do Festival d’Avignon em 1947 só se compreende no contexto do pós-guerra. Não foi apenas a criação de um festival artístico: foi um projeto de reconstrução moral, democrática e cultural da França e, em certa medida, da Europa.
O Festival pretendia contribuir para a reconstrução de uma sociedade traumatizada pela guerra. O teatro passou a ser visto como uma forma de criar debate público, espírito crítico e sentido de comunidade. Foi neste contexto que surgiu a ideia de um “teatro para todos”, acessível, exigente e não reservado às elites parisienses. O Off surgiu, em 1966, como protesto e alternativa à proposta de Jean Vilar e reforçou a ideia de uma cidade-festival. Avignon tornou-se um laboratório de uma política de descentralização cultural e exemplo de democratização do acesso à cultura, visão que influenciou profundamente a política cultural francesa das décadas seguintes.
O festival nunca foi neutro. Não partidário, mas profundamente político no sentido cívico e talvez esse facto justifique a escolha que Tiago Rodrigues, que acompanha o princípio de Jean Vilar, de que o teatro devia ser um “serviço público”, tão importante para a democracia como a escola ou a biblioteca. É por isso que o Festival d’Avignon se tornou em muito mais do que um grande evento artístico: tornou-se um símbolo da reconstrução democrática da Europa após a guerra. A sua missão inicial era criar um espaço onde pessoas de diferentes origens se reunissem para refletir sobre a condição humana através do teatro. O facto de essa visão continuar a orientar o festival, oitenta edições depois, ajuda a explicar o seu prestígio internacional.
Mas Avignon não é apenas o lugar da efemeridade de um festival: há poucas cidades europeias com menos de 100 mil habitantes com uma concentração permanente tão elevada de artistas e companhias profissionais. O investimento público francês é, por isso, fundamental: o Estado central, a região, o departamento e o município financiam teatros, residências, formação e criação artística, o que permitiu que muitas companhias estabelecessem sede em Avignon sem depender exclusivamente da bilheteira.
Além disso, a cidade oferece uma infraestrutura incomum para a sua dimensão: a La FabricA, um grande centro de ensaios e criação ligado ao Festival; teatros permanentes como Théâtre des Halles e Théâtre du Balcon; dezenas de salas independentes que funcionam durante todo o ano e intensificam a atividade em julho. Há também um “efeito de ecossistema”: cenógrafos, figurinistas, técnicos de luz, produtores, administradores culturais, gráficas, empresas de aluguer de equipamentos e escolas de teatro criam um mercado de trabalho especializado.
Na “cidade-festival” a identidade cultural, a economia local e uma parte significativa da atividade profissional organizam-se em torno do teatro e das artes performativas ao longo de todo o ano, tendo o festival como principal motor.
A oferta cultural em Avignon vai para lá das salas de espetáculo e inclui diferentes museus públicos e privados, merecendo destaque o museu que acolhe a coleção de arte contemporânea de Yvon Lambert (FR, 1936). Contudo, a cidade soube construir uma marca e agregar-lhe valor social e económico: uma marca de Cultura e de Cultura democrática, num evento mobilizador e de encontro que é um bálsamo de esperança neste mundo tão turvo em que vivemos.
Como sugestão, fica a passagem por Portugal, de 10 a 20 de setembro na Culturgest, do espetáculo “A distância” de Tiago Rodrigues que estreou, precisamente, em Avignon. Os bilhetes já estão a voar!