As universidades enfrentam a maior crise de legitimidade desde a sua massificação. Durante décadas, o contrato foi simples: o estudante investia vários anos numa instituição, a família suportava custos elevados, e a sociedade aceitava o diploma como sinal de competência, disciplina e estatuto. Esse contrato está a desfazer-se.

A inteligência artificial (IA) não criou todos os problemas, mas tornou-os impossíveis de esconder. O modelo universitário moderno foi desenhado para um mundo de escassez de conhecimento, de professores, de bibliotecas, de feedback e de certificação. Nesse contexto, fazia sentido juntar jovens num auditório, organizar o conhecimento em disciplinas, transmiti-lo por aulas expositivas e testá-lo através de exames ou trabalhos escritos. Hoje, qualquer estudante tem no bolso um tutor permanente, capaz de explicar, programar, escrever, simular, corrigir e personalizar percursos de aprendizagem em segundos.

A questão não é apenas a fraude académica. Esse é o sintoma superficial. O problema mais profundo é que a IA destrói a evidência tradicional de aprendizagem. Se um ensaio, um problema ou um relatório podem ser produzidos sem que o aluno faça o trabalho cognitivo de síntese, crítica e iteração, então a avaliação deixa de provar aquilo que dizia provar. E, quando a avaliação perde credibilidade, o diploma começa a perder valor.

Ao mesmo tempo, a IA ataca o primeiro degrau profissional que justificava muitos cursos. Durante anos, os jovens licenciados aprendiam realizando tarefas de entrada: análise básica, apresentações, pesquisa documental, relatórios, programação simples, tratamento de dados. São precisamente essas tarefas que os agentes de IA estão a automatizar ou a comprimir. A universidade continua a formar para o emprego júnior do passado, enquanto o mercado começa a pedir pessoas capazes de supervisionar sistemas, formular problemas e criar valor com ferramentas que mudam todos os meses.

As famílias perguntam, com razão: que emprego real existe no fim do curso? Que rede de contactos estou a comprar? Que competência tangível leva o aluno consigo? Que prova concreta tem de que sabe fazer alguma coisa relevante? O antigo argumento do “canudo” já não chega. Em muitas áreas, a universidade tornou-se uma fábrica de credenciais cara, lenta e burocrática, demasiado protegida da concorrência e demasiado distante do mundo que diz preparar.

Em Portugal, esta crise é agravada por bloqueios conhecidos: regulação excessiva, currículos difíceis de alterar, numerus clausus definidos administrativamente, propinas uniformizadas, carreiras docentes rígidas e governação demasiado fechada sobre si própria. O resultado é um sistema com poucos incentivos para inovar e quase nenhuma consequência para a irrelevância. A próxima década fará uma triagem impiedosa: sobreviverão as instituições que criam verdadeiro capital humano; as restantes manterão talvez edifícios e acreditações, mas perderão a confiança de alunos, famílias e empregadores.

A resposta não pode ser usar IA para tornar a universidade antiga ligeiramente mais eficiente. A revolução necessária é mais profunda: passar de um modelo centrado na transmissão de conhecimento para um modelo centrado na transformação da pessoa.

O conhecimento factual e técnico tornou-se abundante. O que se tornou escasso foi a capacidade de formular boas perguntas, distinguir qualidade de mediocridade, decidir sob incerteza, colaborar, aplicar tecnologia a problemas reais e assumir responsabilidade pelo resultado. A educação superior deve deixar de perguntar apenas “o que sabe este aluno?” e começar a perguntar “o que consegue este aluno construir, resolver, defender, melhorar e aprender a seguir?”.

Um novo modelo deve combinar três dimensões. Primeiro, um núcleo comum exigente de ciências, humanidades e artes. Durante demasiado tempo, a educação superior empurrou os alunos para especializações cada vez mais estreitas, como se o futuro pertencesse apenas a especialistas de domínio. Mas, num mundo em que a inteligência artificial consegue aceder, sintetizar e aplicar conhecimento técnico em segundos, a especialização isolada perde parte do seu valor. O que se torna mais precioso são pessoas com bases largas, capazes de cruzar linguagens, disciplinas e formas de pensar. Precisamos de formar mais polímatas: indivíduos que compreendem tecnologia, humanidades, ciência, economia e sociedade, porque as ideias verdadeiramente novas surgem quase sempre na interseção de conhecimentos diversos. A liberdade intelectual não dispensa fundamentos. Sem bases sólidas, o estudante não consegue avaliar o que a máquina lhe entrega, perceber quando uma resposta está errada, nem combinar saberes diferentes para criar soluções que ainda não existem.

Segundo, percursos personalizados e ao ritmo de cada um. A IA permite abandonar a ficção de que todos devem aprender a mesma coisa, na mesma sequência e à mesma velocidade. Tutores digitais podem diagnosticar lacunas, adaptar explicações, criar simulações e acompanhar a progressão. A sala de aula deixa de ser o lugar onde se despeja matéria e passa a ser o lugar onde se discute, experimenta, constrói e responde por escolhas.

Terceiro, experiências formativas intensas. As qualidades mais importantes no século XXI — agência, coragem, bom gosto, empatia, colaboração, julgamento, ética e capacidade de aprender — não se ensinam por slides. Aprendem-se em situações reais ou quase reais: projetos exigentes, desafios abertos, trabalho em equipa, debate socrático, avaliação entre pares, exposição pública do trabalho, falhanço seguro e contacto com empresas e comunidades.

A avaliação também tem de mudar. Menos exames de memória, mais provas de domínio. Menos trabalhos facilmente delegáveis à IA, mais defesas orais, demonstrações, portfólios, protótipos, relatórios de processo e projetos com impacto verificável. O estudante deve sair com evidências públicas e robustas do que sabe fazer, não apenas com uma média final.

O professor não desaparece; sobe de estatuto. Deixa de ser repetidor de conteúdos para se tornar mentor, curador, exemplo intelectual, avaliador exigente e designer de experiências. A IA pode explicar um conceito infinitas vezes; mas não substitui o adulto que inspira, desafia, corrige, exige rigor e ajuda o aluno a formar carácter.

Um novo modelo de educação superior deve também reconhecer que aprender software deixou de ser uma especialização reservada a futuros informáticos e passou a ser uma literacia fundamental, tão estruturante como saber escrever ou calcular no século XX. Numa economia moldada pela inteligência artificial, a vantagem não estará apenas em usar ferramentas digitais, mas em compreender a sua lógica, construir soluções, automatizar processos e orientar sistemas inteligentes para resolver problemas reais. Isto exige percursos mais curtos, intensivos e práticos, onde o estudante trabalha desde o primeiro dia como criador e não apenas como recetor de conhecimento. Modelos como o da Escola 42 mostram que é possível substituir a rigidez dos currículos fixos por uma aprendizagem baseada em projetos, avaliação contínua, colaboração entre pares, ritmo individual e atualização permanente dos conteúdos. A empregabilidade deixa, assim, de depender exclusivamente de um diploma e passa a assentar num portefólio concreto de competências demonstradas, visível em projetos reais e reconhecível pelo mercado.

Outro critério decisivo para a reinvenção do ensino superior deve ser a eficiência económica. Não basta perguntar que formação produz melhores competências; é preciso perguntar também quanto custa produzi-las e quanto tempo demora até gerar valor para o aluno, para as famílias e para a sociedade. A comparação entre a Escola 42 e um curso tradicional de Engenharia Informática é reveladora. Um percurso na 42 custa cerca de 4.000 euros por aluno, assumindo dois anos de formação a 2.000 euros por ano – é gratuito para o aluno porque totalmente financiado por mecenas. Já uma formação universitária tradicional, que na prática pode prolongar-se por seis anos, representa facilmente um custo de 60.000 euros, assumindo 10.000 euros por ano. A diferença torna-se ainda mais expressiva quando se considera o custo de oportunidade: durante os quatro anos adicionais em que o aluno universitário ainda está a estudar, o aluno da 42 já está no mercado de trabalho, acumulando, de forma conservadora, cerca de 100.000 euros em rendimento. A comparação real deixa então de ser 4.000 euros contra 60.000 euros e passa a ser 4.000 euros contra 160.000 euros — uma diferença de 1 para 40. E, no final desse período de seis anos, o aluno da 42 não só já acumulou experiência profissional relevante, como tenderá a estar numa trajetória salarial mais avançada do que quem acaba de sair da universidade tradicional. Este exemplo mostra que os novos modelos de educação superior não devem ser apenas pedagogicamente melhores; devem ser também economicamente mais racionais, mais rápidos a criar valor e mais capazes de reduzir o desperdício de tempo, talento e recursos.

Para que esta revolução aconteça, não basta pedir às universidades que mudem. É preciso alterar os incentivos do sistema. A primeira política deve ser conceder verdadeira autonomia às instituições: autonomia para recrutar, promover e despedir professores; definir salários; criar cursos; encerrar cursos; experimentar formatos pedagógicos; adotar tecnologia; organizar calendários; e escolher modelos de avaliação. A autonomia, contudo, deve vir acompanhada de responsabilização. Quem tem liberdade para inovar deve responder pelos resultados que entrega.

A segunda medida é abolir o numerus clausus como mecanismo central de planeamento. As universidades devem poder gerir vagas e propinas, respondendo diretamente à procura dos alunos e às necessidades da economia. Cursos sem procura devem encolher ou fechar; cursos exigentes, úteis e atrativos devem poder crescer. A qualidade não se defende congelando artificialmente a oferta, mas permitindo que alunos, famílias e mercado revelem onde existe valor.

A terceira mudança é substituir grande parte do financiamento direto às universidades por financiamento aos alunos. O Estado deve apoiar o talento e o mérito, não estruturas independentemente do seu desempenho. Os melhores classificados no concurso nacional de acesso receberiam financiamento público que poderiam usar na instituição e no curso que escolhessem. Isto aumentaria a competição por bons alunos, elevaria o mérito académico e obrigaria as universidades a melhorar a sua proposta de valor.

A quarta política seria permitir que os candidatos escolhessem livremente cursos e universidades, pagando propinas com financiamento público ou com recursos próprios, dependendo da sua classificação. Assim, o apoio público deixaria de ser um subsídio automático à instituição e passaria a seguir o estudante. Quem atraísse talento receberia mais recursos; quem não conseguisse convencer alunos teria de se reinventar.

A quinta medida é tratar o ensino superior como uma indústria estratégica de exportação de serviços. Portugal pode atrair muitos mais estudantes internacionais, mas deve fazê-lo com regras claras: os estrangeiros pagariam propinas, contribuindo para o financiamento das instituições e para a economia nacional. Isto encorajaria o crescimento das universidades com maior qualidade académica e maior capacidade de atração global.

As consequências seriam claras. Cursos sem procura encerrariam. Universidades com programas atrativos cresceriam. A excelência deixaria de ser proclamada em brochuras e passaria a ser testada pela capacidade de atrair alunos, talento docente, financiamento competitivo e reconhecimento externo. (A existência de universidades em regiões mais desfavorecidas pode ser importante para o seu desenvolvimento. Nesses casos, justifica-se um subsídio fixo, transparente e separado, atribuído por razões de coesão territorial, independentemente do número de alunos que consigam atrair.)

Esta estratégia criaria um ensino superior mais dinâmico, adaptável e competitivo, centrado na excelência académica, na inovação pedagógica e na resposta efetiva às necessidades dos alunos e do mercado. A alternativa é fingir que a inteligência artificial é apenas mais uma ferramenta, quando na verdade é uma força que obriga a universidade a regressar à sua pergunta essencial: formar pessoas capazes de pensar, criar, decidir e agir.

A revolução é necessária – e urgente.