A invasão do Irão por Trump fez disparar o preço do feijão no Brasil, do milho no México, e dos ovos, peixe e tomate em Portugal. Os automobilistas de todo o mundo enfrentam preços de combustível mais elevados, uma vez que a guerra abalou os mercados energéticos globais, forçando os governos a estudar a melhor forma de reagir. Portugal não é exceção e até sobressai. Com o bloqueio do estreito de Ormuz, é o segundo país da UE onde encher um depósito de gasolina mais pesa nos rendimentos das famílias face ao disparo dos combustíveis que impulsionou a inflação para 3,3%, o valor mais elevado em quase dois anos.
A fatura atinge os pobres e mais velhos que já antes faziam contas à vida. Não conseguem esticar o dinheiro até ao fim do mês e, muitas vezes, deixam de lado despesas essenciais, como medicamentos e até alimentação, para pagar a casa. Atinge a classe média, já asfixiada com a elevada carga fiscal que teima em permanecer em níveis elevados. Mal consegue pagar contas, com a subida mais acentuada dos preços da habitação a agravar as vulnerabilidades de muitas famílias. Quem menos tem vai pagar pela irresponsabilidade de guerras que ninguém quer. Consciente desta realidade, Bruxelas lançou um pacote de medidas para proteger os cidadãos europeus face à crise energética. Os apoios são direcionados às famílias e indústrias europeias, especialmente as mais vulneráveis, através de vales de energia, preços regulados temporariamente, reduções totais ou parciais de impostos especiais sobre a eletricidade.
Por cá, Montenegro promete medidas equilibradas e admite “sacrificar resultados” para conter os efeitos da guerra. Contrapõem-se as críticas de “insensibilidade” sobre o aumento do custo de vida. Aponta-se o dedo ao insuficiente desconto do ISP, enquanto Espanha reduziu o IVA nos combustíveis para 13%, e outras medidas poucochinhas que não chegam para aliviar famílias e empresas.
Afastado o IVA zero, tardam medidas de apoio ao cabaz alimentar, que bateu máximos: 260 euros. Um novo luxo! Comer bem arrisca deixar de ser uma condição básica de saúde e dignidade. Restam as promessas de medidas que não aliviam os efeitos da subida drástica dos combustíveis. Atestar um depósito de 50 litros custa agora mais de 100€ (especialmente gasóleo), ou seja, é 20€ mais caro. Uma cascata de aumentos indesejados que chega sem aviso ao consumidor final com a energia mais cara, encolhendo orçamentos onde já pesam as contas da habitação, educação e saúde. Num país com salário mínimo de 920 euros brutos, pouco ou nada sobra no final do mês.
O impacto real do conflito no custo de vida dos consumidores dependerá da duração da guerra, com consequências ainda imprevisíveis e desfecho muito incerto. Certo é que o aumento de preços vai muito além dos combustíveis, as prestações do crédito estão a aumentar e o cabaz alimentar atinge o valor mais alto em quatro anos. São expostas as fragilidades do país. Cada conflito no mundo abre uma crise dentro de casa. Na combinação cruel de inflação a acelerar, juros a subir, pressão do imobiliário e aumento generalizado do custo de vida, os cofres do Estado engordam com mais impostos. Para já, o Governo opta por beneficiar. Em silêncio.