O ex-ministro da Economia António Costa Silva defendeu hoje que é necessário regular o setor da Inteligência Artificial (IA), mas “em doses inteligentes” para não afetar a inovação, e advertiu que os Estados Unidos ainda estão atrasados nesta dimensão.

Na Grande Conferência anual Diário de Notícias, que decorreu na Fundação Champalimaud, em Lisboa, o ex-governante afirmou que estas tecnologias que “aparecem de décadas em décadas são fulcrais” e é preciso ter presente que a IA “já está a mudar o mundo, o funcionamento da economia e da sociedade”.

Do ponto de vista geopolítico, alertou, a IA coloca “um risco muito grande, porque estas tecnologias estão concentradas sobretudo no setor privado, nas grandes empresas, e sobretudo nos Estados Unidos da América”, sendo necessária uma regulação inteligente que preserve a inovação.

“Sou favorável à regulação, mas regulação em doses inteligentes, porque a inovação é fundamental”, disse Costa Silva.

O ex-ministro notou que “o governo americano não tomou nenhuma iniciativa em termos de regulação”, antes “adotou um ponto de vista que é exatamente o contrário ao da União Europeia, onde existe uma regulação que é muito importante”, assente em quatro categorias de risco.

Na mesma mesa redonda, a ex-ministra da Presidência e ex-eurodeputada do PS Maria Manuel Leitão Marques considerou que é necessário envolver os três grandes blocos económicos mundiais (Estados Unidos, China e União Europeia), as grandes organizações como a ONU e a OCDE, as grandes empresas de IA enquanto “atores incontornáveis”, e a sociedade civil.

Leitão Marques salientou que “a regulação defende os cidadãos para os dois lados”, contra as empresas e contra os Estados, e antecipou os desafios dessa tarefa, dado que a regulação “fixa o problema” mas a tecnologia está sempre a mudar.

“Quando há um consenso, esperança, vontade e um certo otimismo — e há empresas a clamar por ele — poderemos ser capazes de chegar a um mínimo de respeito pela humanidade, como diz o Papa, e à prevalência da humanidade sobre a tecnologia”, afirmou Maria Manuel Leitão Marques.

A presidente do .PT, Luísa Ribeiro Lopes, frisou que esta é uma área de governação “de todos”, que não pertence só aos Estados, só às empresas ou só à academia. “É o próprio cidadão que tem uma palavra a dizer”.

O diretor da Huawei Portugal, Diogo Madeira, afirmou que a IA é uma transformação maior do que a Internet, com impacto profundo nas empresas, incluindo nas pequenas, que poderão alavancar-se nesta tecnologia para desenvolver ações que de outra forma não fariam.

O gestor disse ainda que nem sempre foram os autores das inovações quem consegue captar valor e que “Portugal é um país que nunca vai conseguir competir em escala e os países que não competem por escala” têm de competir em agilidade e velocidade.

Ressalvando que a regulação é fundamental, Diogo Madeira considerou que se deve “falar mais sobre como podemos adotar a inovação, do que propriamente vamos bloqueá-la”.

Luísa Ribeiro Lopes advertiu para a capacidade que a tecnologia tem para aumentar as desigualdades, dizendo ser necessário apostar na educação para evitar um desenvolvimento a duas velocidades.