Um pouco por todo o mundo, o anúncio de que os Estados Unidos e o Irão vão assinar o memorando de entendimento na próxima sexta-feira, na Suíça, suscitou manifestações de regozijo, com certeza acrescentadas de um grande alívio face à previsível abertura do Estreito de Ormuz – com os mercados do petróleo a acompanharem esse regozijo com uma forte quebra dos preços. Vale a pena salientar que os principais líderes mundiais optaram por não fazerem qualquer declaração sobre Israel e sobre o facto de o seu ministro da Segurança Nacional, Itamar Bem-Gvir – um extremista de direita que, juntamente com o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, mantêm o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ‘encostado’ ao radicalismo mais inexplicável – ter dito que “não somos parte desse acordo”.

Dito de outra forma: Ben-Gvir parece esperar que Netanyahu não cumpra a vontade do presidente dos Estados Unidos, que quer que o exército israelita se abstenha de continuar a atacar o Líbano e a assumir posições cada vez mais consolidadas no sul daquele martirizado país. Sabendo o governo israelita que qualquer ação militar no Líbano equivale a dinamitar o acordo, se ela vier a acontecer, será programada para isso mesmo: para impedir que o acordo seja assinado. Se este cenário ocorrer, os Estados Unidos terão necessariamente que fazer qualquer coisa, dizem vários analistas – mesmo que isso venha ao arrepio de uma postura de alinhamento que tem décadas (mas que, recorde-se, é posterior a 1948, data da fundação de Israel, que na altura tinha a URSS como seu mais sólido suporte externo.

 

Reações de entusiasmo

A União Europeia saudou o acordo alcançado, realçando que deverá permitir a reabertura do estreito de Ormuz e permitir negociações mais amplas. Numa mensagem divulgada nas redes sociais, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, acrescentou que a liberdade de navegação é essencial para a estabilidade regional e para a economia global e que, com este entendimento, podem “abrir-se as portas” a negociações mais amplas sobre a paz e a segurança no Médio Oriente.

No mesmo registo, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que os europeus estão prontos para contribuir para uma “paz duradoura”. “Saúdo o fim desta guerra dispendiosa e o restabelecimento total da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz”, escreveu nas redes sociais.

A chefe da diplomacia comum, Kaja Kallas, também demonstrou a sua esperança em que o Estreito de Ormuz volte finalmente a assumir as funções de estrada de distribuição do petróleo e do gás produzido no Golfo Pérsico, retirando pressão sobre o pico inflacionista que está há meses (re)instalado no bloco dos 27.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, saudou aquilo que chamou de “avanço diplomático” e agradeceu a todos os parceiros que contribuíram para que o memorando de entendimento fosse possível. “O acordo pode abrir caminho para a recuperação da economia mundial e a estabilização da região”. A convicção do chanceler é que as negociações das próximas semanas garantam que o Irão ponha fim, de forma verificável, ao seu programa nuclear militar e salientou que não deve haver mais ataques contra Israel e outros vizinhos da região. “Agora trata-se de aplicar com determinação o que foi acordado”, afirmou, sublinhando a necessidade de o Estreito de Ormuz permanecer aberto e sem quaisquer restrições.

A Arábia Saudita também aplaudiu o acordo alcançado para terminar as operações militares e iniciar, no prazo de 60 dias, negociações mais detalhadas, defendendo que deve ter como objetivo um acordo permanente. Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros saudita sublinhou a necessidade de se chegar a um acordo de paz duradouro que tenha em conta os interesses de segurança dos Estados da região.

O Egito foi outra das vozes mais importantes do mundo islâmico a saudar o acordo, que, disse fonte da diplomacia, representa um “ponto de viragem importante” para a paz na região. “O Egito congratula-se com o acordo alcançado entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irão, que considera ser um desenvolvimento muito significativo que vai restaurar a segurança e a estabilidade a nível regional e internacional”, dizia um comunicado do governo do Cairo.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar manifestou o “total apoio a todos os esforços e iniciativas que visem reforçar a segurança e a estabilidade regional”. O pequeno país onde o xiismo tem assinalável importância, foi um dos que, juntamente com o Paquistão, mais empenho demonstrou na mediação do conflito.

Preterido nessa área, a da mediação (pelo menos na linha da frente), o presidente da Turquia, Recep Erdogan, não deixou de se associar à “satisfação” com que encarou o acordo alcançado: é “um desenvolvimento importante para estabelecer a paz e a tranquilidade” no Médio Oriente. “Espero de todo o coração que esta notícia, de que o mundo inteiro há muito necessitava, ajude a abrir caminho para uma paz e segurança duradouras na nossa região”, declarou nas redes sociais. Apesar da sua forte oposição a Benjamin Netanyahu, Erdogan não mencionou diretamente o nome do primeiro-ministro de Israel, mas aconselhou a que todas as partes envolvidas evitem “declarações provocatórias” e ações que possam aumentar a tensão. Alertou também para o risco de tentativas de sabotagem antes da assinatura do documento.

A Austrália destacou o facto de o acordo prever medidas para reabrir o Estreito de Ormuz e restabelecer a liberdade de navegação naquela via marítima. Em comunicado conjunto, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, e a ministra dos Negócios Estrangeiros, Penny Wong, saudaram o pacto, reiteraram o apelo de Camberra ao fim das hostilidades na região, incluindo o conflito no Líbano e pedirão um compromisso construtivo para evitar o reacender do conflito.

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, saudou o anúncio, apelando à garantia da navegação no Estreito de Ormuz. “No futuro, esperamos que este memorando seja implementado de forma consistente, que a navegação livre e segura no Estreito de Ormuz seja efetivamente garantida e que se chegue o mais rapidamente possível a um acordo final sobre a questão nuclear do Irão e outros assuntos”, escreveu nas redes sociais. O ministro dos Negócios Estrangeiros japonês, Toshimitsu Motegi, emitiu um comunicado onde saudou o acordo como “um grande passo para a resolução da situação”.

Do seu lado, a China saudou com entusiasmo o acordo de paz alcançado. As declarações oficiais foram feitas pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian, que destacou a posição de Pequim de apoio ao entendimento. Sem esquecer o papel do Paquistão, que funcionou como o mediador, Pequim disse esperar que o documento seja assinado dentro do prazo previsto, 19 de junho. Lin afirmou que a China espera que todas as partes envolvidas “permaneçam comprometidas com uma resolução pacífica”.

Portugal une-se à comunidade internacional e aplaude o anunciado acordo para pôr fim aos ataques no Irão e no Líbano. O presidente da República, António José Seguro, espera que a implementação do acordo “traga a paz, segurança e estabilidade indispensáveis ao desenvolvimento de toda a região, e permita o retomar da livre circulação no estreito de Ormuz”.

 

Missão militar conjunta está pronta

Falando antes de partir para a cimeira do G7 em França, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, considerou o entendimento um “momento enormemente significativo” para recuperar a economia global e a segurança regional. O primeiro-ministro frisou que, para a paz durar, os compromissos assumidos pelo Irão sobre o seu programa nuclear têm de ser robustos e totalmente verificáveis. Recorde-se que o Reino Unido participou no planeamento desta fase de transição e ofereceu apoio militar especializado para operações de remoção de minas marítimas, garantindo que a reabertura do Estreito de Ormuz aconteça em total segurança.

O anfitrião da cimeira, Emmanuel Macron, saudou o acordo com grande entusiasmo e assumiu um papel de liderança na sua aplicação prática. O presidente francês anunciou que uma missão militar conjunta entre a França e o Reino Unido já está pronta para ser destacada para a região. A força naval vai apoiar o tráfego marítimo e garantir a reabertura do Estreito de Ormuz em total segurança. Macron avisou também que vai defender um canal livre e “sem portagens” para o comércio.

Portugal alinhou pelas incondicionais declarações de regozijo. “Portugal estará sempre do lado da busca de soluções diplomáticas e do respeito pelo direito internacional e agradece os esforços de todas as partes envolvidas na mediação”, lê-se numa nota publicada pela Presidência da República. No mesmo sentido, o Governo português saudou o acordo, esperando que possa ser o ponto de partida para uma paz duradoura para a região e o mundo. Nas redes sociais, o Ministério dos Negócios Estrangeiros “agradece a incansável mediação do Paquistão e os importantes contributos do Qatar, da Arábia Saudita e da Turquia”.